segunda-feira, 23 de maio de 2022

Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

 





Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sempre foi uma descoberta prazerosa visitar universidades aqui no estado de São Paulo. Já visitei o câmpus da USP de São Paulo e de Ribeirão Preto, a Unicamp e alguns dos câmpus da UNESP, portanto, visitar a UBA poderia ser igualmente interessante. Não apenas isso, eu queria algum contato que durasse mais do que aqueles poucos dias em que estaríamos ali e, se fosse com alguém que tivesse afinidades literárias, melhor.

Como já era planejado, saímos a procura da Filo, a Facultad de Filosofía y Letras (FFyL). Pegamos o Subte e fomos de Piedras a San Pedrito. Chegando lá, andamos um pouco e encontramos a UBA, Universidad de Buenos Aires, da qual a Filo faz parte. O lugar é uma antiga fábrica de charutos que foi transformada em faculdade e parecia abandonado, depois ficamos sabendo que de fato estava abandonado, e isso era bastante desanimador. É que em breve a Filo estará num prédio novo e esse é um momento de transição. Circulamos pelo lugar e, falando com alunos, soubemos de uma secretaria de informações. Antes de chegarmos à secretaria, encontramos três moças de militância política: Azul, Belem e Malena. Elas nos convidaram a participar do Encuentro Socioambiental que aconteceria no nosso penúltimo dia em Buenos Aires. Pegamos panfletos, compramos os jornais que elas estavam vendendo e tomamos nota do encontro, que seria na Facultad de Sociales UBA.

Ainda nas dependências da Filo, no momento em que íamos sair, encontramos um rapaz com alguns livros sobre uma mesa de lata como as que temos em bares por aqui. Contei que conversamos com as colegas dele, disse do meu interesse em conhecer mais sobre a política Argentina e sobre o peronismo, então, ele me ofereceu os livros que estava vendendo, interessei-me particularmente pelo livro Escritos Peronistas, de Norberto Ivancich. Esse livro em particular tinha o preço em aberto, pagávamos o que achávamos que deveríamos pagar. Peguei o livro, como a Marta estava com o dinheiro, abriu a bolsa e ofereceu cinquenta pesos ao rapaz, que fez uma cara assim... Eu vi que era pouco, cerca de dois reais, mas o preço estava em aberto e eu fiquei sem saber o que fazer. Fiz cara de desentendido, conversamos um pouco mais e fomos embora. A Marta, depois, para se desculpar, questiona: “Mas, gente, custava por preço no livro?”. O caso acabou entrando para meu anedotário argentino!

O encontro na Filo levou-nos ao momento alto do passeio, o Encuentro Socioambiental. Digo isso porque pudemos interagir, conversar com alguém e expandir a experiência que duraria menos de uma semana. No Encuentro Socioambiental as palestras eram simultâneas, por isso eu e a Marta tivemos de nos separar. Eu participei da palestra “Crisis social y desigualdad: el rol de los comedores populares y los movimientos sociales”, dirigido pela Monica, e a Marta participou do “Mal comidos, agronegocio y cementación urbana: soberania alimentaria y eco-huertas”, dirigido pela Jessica. Das amizades feitas nesse encontro resultou minha participação, ainda hoje, nos debates políticos com uma correspondente argentina que mora em São Paulo, a Verónica.

Hoje é o aniversário de um mês desse Encuentro Socioambiental. No final das contas, essas amizades, ainda que momentâneas, e a experiência política são o que trouxemos além das fotos. É curioso pensar na riqueza de conhecer a cultura de um país por meio de uma viagem, a experiência é de fato enriquecedora, pensar num intercâmbio agora ficou muito mais fácil.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Buenos Aires: primeiras impressões

 





Na manhã de terça-feira da semana passada Buenos Aires ainda poderia se tornar um passeio malogrado, hoje não. Deu tudo certo: saímos no horário, o ônibus para São Paulo chegou no horário, a conexão para Guarulhos chegou no horário, o voo para Buenos Aires foi tranquilo. Foi tudo tão pontual e tão correto que até ficamos, eu e a Marta, desconfiados de que o destino nos reservava algum outro desapontamento mais grave.

Já em Buenos Aires, pegamos um taxi que preferiu receber em reais ao final da corrida. Alertou-nos de que o “Paseo de autobús hop-on hop-off” não seria uma boa ideia. Passeio caro e rápido demais… ele preferia que utilizássemos taxi! Como a Marta já não tinha certeza se queria ou não esse passeio, decidimos por não o fazer. Nossa opção foi flanar pela cidade, seguiríamos um roteiro mais ou menos estabelecido, usaríamos o metrô, o ônibus e caminharíamos muito. A ideia parecia boa e assim fizemos.

Seria preciso um chip (em espanhol, um “SIM”) para o celular, pois o Google maps seria nossa principal ferramenta de localização. Precisaríamos também de um cartão para o transporte público. Isso tudo deveria ser providenciado sem demora, ainda no primeiro dia. Compramos bem barato um cartão de uma operadora local que não funcionou, depois adquirimos de graça um cartão Claro que, com uma pequena carga, funcionou durante todos os dias em que estivemos lá. O cartão de transporte público, o SUBE, foi bem mais fácil.

Nesse primeiro dia, ficamos desconfiados fosse pelo taxista muito solícito, fosse pela atendente ou proprietária do Kiosko, um tipo de banca de jornais que nos vendeu o “SIM” que não funcionou, fosse pelos serviços do hotel — esse merece um parágrafo especial!

Embora Buenos Aires seja uma cidade enorme, há uma proximidade entre as pessoas que já não se encontra mesmo nas cidades interioranas do estado de São Paulo. O portenho nos ouve com atenção se falamos em português, não ri se tentamos falar espanhol e é muito pronto a ajudar. Há um calor humano e uma oferta de gentilezas que já estamos perdendo por aqui. Essa informalidade, vamos dizer assim, no hotel se traduzia em “pequenos problemas”.

Logo que chegamos ao hotel, ligamos o “ar-condicionado”, que não resfriava coisa nenhuma. No banheiro, a Marta desconfiou que as toalhas não tinham sido trocadas. Depois de usar a privada, notei que a caixa d’água não enchia, era preciso abrir a caixa e tampar a saída d’água manualmente. A Marta desceu até a recepção com uma lista de reclamações, ouviu que o hotel não tem ar-condicionado, tem só aquecimento e ventilação, no momento, só a ventilação estava disponível (mais tarde notamos que a preocupação dos argentinos é o frio, não o calor). Até deram toalhas novas para a Marta, mas, no tempo em que estivemos lá, percebemos que trocar toalhas nunca esteve na lista de prioridades. A caixa d’água da privada ainda agora deve estar esperando conserto. Durante o tempo que estivemos lá, a Marta sofreu mais com isso tudo do que eu.

Antes de iniciarmos o primeiro passeio, fomos ao Goya, um bar na esquina da rua Suipacha, onde estávamos hospedados, com a avenida de Mayo. Fomos abordados por um vendedor ambulante que vende meias. Ele foi colocando meias em nossas mãos, em cima da mesa, entre batatas fritas e pães, e só depois de muita insistência desistiu e foi embora. Como a atitude dele foi muito incomum, comecei a verificar se ele poderia ter levado alguma coisa que estivesse em cima da mesa. Senti falta da tampa de uma lente da câmera fotográfica, algo que para ele não valeria nada, mas que oportunamente eu teria de repor. Nesse momento, uma portenha veio alertar-nos, em inglês, a respeito do equipamento fotográfico. Foram várias as advertências que eu tive a respeito da câmera fotográfica nos dias em que estivemos lá, no entanto, o ambulante não levou nada, a tampa ficou no bolso da calça que usei na viagem. Só percebi isso na volta, quando vesti aquela calça de novo.

Se essa tinha que ser uma viagem para “ver” Buenos Aires, então, que fosse também uma viagem para fotografar. Uso uma câmera Canon Rebel T6, que é uma câmera semiprofissional, com uma lente EFS 18-55mm e uma EF-S 55-250mm. Levo tudo numa bolsa, também da Canon, e isso talvez seja mesmo chamativo. Depois do bar Goya fomos visitar e fotografar o Obelisco, a Casa Rosada e arredores. Por sinal, algumas das fotos dessa viagem estão em meu Instagram.


sábado, 16 de abril de 2022

Buenos Aires e outras cidades literárias

Um título mais apropriado seria Outras cidades literárias e Buenos Aires, já que a capital argentina ficou para o final! De todo modo, o que tenho a dizer é que, em literatura, os grandes autores ambientam seus romances nas cidades em que vivem. Assim, Rio de Janeiro é a cidade de Machado de Assis, ali se passam Dom Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, ainda que esse último tenha seu início em Barbacena, MG. Londres é a cidade de alguns dos romances de Virginia Woolf, ao menos daqueles que eu li, como Mrs Dolloway. Dublin, capital da Irlanda, é a cidade de James Joyce, tanto que sua coleção de contos, Dublinenses, é uma ficção sobre os moradores de lá. Faz tempo que li Clarice Lispector, mas, salvo engano meu, ela ambienta boa parte de seus contos e romances em São Paulo e no Rio de Janeiro, nas duas cidades, não me lembro de outras.

Tony Bellotto organizou duas coletâneas de contos simpaticíssimas, São Paulo Noir e Rio Noir, ambas pela editora Casa da Palavra. Entre os grandes méritos, está o de reunir contistas brasileiros contemporâneos. Ainda que alguns sejam de escritores muito conhecidos como Marçal Aquino, Drauzio Varella e Luís Fernando Veríssimo, há também autores mais recentes como Vanessa Barbara.

Por causa de minha viagem para Buenos Aires, li o livro de João Correia Filho, Buenos Aires, livro aberto: a capital argentina nas pegadas de Borges, Cortázar e cia. Não li outros livros de João Correa Filho, só o dedicado a Buenos Aires, e até acredito que esse guia tenha sido possível devido ao sucesso anterior de seu livro Lisboa em Pessoa: guia turístico e literário da capital portuguesa. Digo isso porque eu esperava mais do livro, quer dizer, no final, nada do que li será aproveitado nesse passeio e terei que descobrir Buenos Aires por mim mesmo!

O livro de Airton Ortiz sobre Atenas, que tem como título, justamente, o nome da cidade, Atenas, acabou sendo uma boa referência durante o início de meus estudos da língua grega e até rendeu algumas conversas divertidas com minha amiga Anthee. É que os hábitos gregos mais pitorescos que ele descreve, algumas malandragens, por exemplo, acabaram sendo desmentidas pela minha amiga e, para falar a verdade, refletindo agora um pouco mais sobre sua narrativa, o tom é tão ficcional quanto qualquer boa história de pescador!

Eu mesmo conto histórias de lugares por onde andei, ainda que tenham sido poucos os lugares. Escrevi sobre Aracaju, nos dias em que vivi por lá, mas eram páginas de um caderno que eu escrevia a mão, nada parecido com um blog — eu nem sei dizer se já existia blog naqueles dias. Aracaju aconteceu em 2002, em breve se completarão 20 anos daquela aventura. Também mantive um diário quando estive em Ribeirão Preto. Tanto em Aracaju quanto em Ribeirão Preto foram vários meses, em Buenos Aires serão cinco dias apenas. Portanto, essa não será a viagem mais longa, nem a mais distante; será a primeira internacional.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Buenos Aires: primeiro planejamento

 























Ainda não fiz uma viagem internacional. Sempre tive em perspectiva que, por aprender línguas, em algum momento eu faria uma viagem para fora do Brasil, até mesmo com fins acadêmicos. Quem sabe um intercâmbio… vários colegas fizeram durante a graduação.
 
O intercâmbio não aconteceu e a viagem ficou por minha conta mesmo. Durante a pandemia, os preços de viagens despencaram e foi possível comprarmos, eu e a Marta, minha namorada, um pacote de cinco dias em Buenos Aires. Isso foi em 2020 e a viagem aconteceria cerca de dez meses depois, em abril de 2021, o caso é que ninguém imaginava que a pandemia fosse durar o que durou, ou ainda dura.
 
Curiosamente, o espanhol é uma língua que ainda não consegui aprender e hoje o aprendizado de uma língua nova é algo que caminha muito lentamente. É que me parece ser mais necessário desenvolver ou aprimorar um pensamento crítico do que aprender um outro idioma. Sem contar que ainda devo avançar no aprendizado daqueles idiomas que aprendi pouco além do nível intermediário. Ainda assim, fiz alguns estudos de espanhol e li alguns livros. Até ajudei a traduzir um capítulo de uma autora mexicana, tradução que deve ser publicada ainda esse ano!
 
De acordo com o planejado, eu teria algum dinheiro para a viagem, que deveria acontecer em abril, mas a viagem foi transferida para outubro e daí eu já não tinha mais reservas, apenas o cartão de crédito. Inflação, um verme na presidência desgovernando o país e o dinheiro se foi. Durante a crise administrativa que ainda dura, ao menos um amigo de militância morreu num momento em que já existia vacina, e nem velório teve. A viagem foi transferida de novo, dessa vez para abril de 2022.
 
Ao que parece, dentro de alguns dias estaremos em Buenos Aires e pretendo contar a experiência aqui. Esse blog ficou parado por alguns anos enquanto eu tentava um projeto de crítica literária numa página WIX que na verdade nunca ofereceu vantagem alguma em relação à essa. Para quem quiser acompanhar, além dos textos deste blog, publicarei fotos em meu Instagram.
 
Na verdade, a viagem quase foi cancelada, perdida mesmo, porque, como estava dizendo mais acima, praticamente não tenho mais recursos. Foi por insistência da Marta que acabamos não perdendo essa viagem que já está paga. Isso posto, essa será uma viagem para “vermos” Buenos Aires. O plano é andarmos por alguns bairros, por sugestão da Marta vamos fazer um passeio de ônibus turístico, do tipo hop-on hop-off. Por sugestão minha, vamos passar uma tarde na Universidad de Buenos Aires.
 
Eu e ela lemos um mesmo guia de viagens e anotamos alguns lugares, depois confrontamos as listas e marcamos os lugares que coincidiram. Assim, já que vamos ficar no Microcentro, parece-nos certo que visitaremos a Casa Rosada e a Plaza Lavalle, nem que seja para vermos a fachada. O Cementerio de la Recoleta também foi um dos pontos que ambos marcamos, mas agora não tenho certeza, pois parece haver lugares demais em nossa lista. É possível que visitemos o Parque 3 de Febrero, o Museo Evita e o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, se tivermos de escolher apenas um dentre os três, eu insistirei no último.

Também queremos ver a Mafalda, que fica em frente à casa onde morou Quino, e, claro, uma livraria, a Libros del Pasaje, que fica no shopping Recoleta Village. Estamos terminando os últimos preparativos.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Mensagem triste de Natal aos professores



No decorrer deste ano, o professor Daniel publicava um texto bastante emotivo a respeito de seu desligamento do quadro de professores da UNIRP (São José do Rio Preto, SP). Com o título “Fui demitido, após 20 anos de dedicação à mesma instituição”, dizia estar sendo desligado “porque a educação está em uma profunda crise econômica, financeira, política, espiritual e moral que não é apenas dela”. Diante desse desabafo, o que adivinho ter sido expresso pelos colegas, pois também já vivi situações similares, é o pensamento silencioso “antes ele do que eu”. Essa apatia deve-se à ideia de que logo ele estaria novamente empregado e o caso, esquecido.

Não foi o que aconteceu. Não é o que está acontecendo. Venho acompanhando as notícias por meio de colegas professores e de colegas alunos.

Recentemente, o corpo discente do Centro Acadêmico Rolando Tenuto, do curso de Medicina da Universidade São Francisco (Bragança Paulista, SP) publicou uma nota de repúdio pela demissão do professor Douglas Collina Martins. Nesta semana, depois de um período de intervenção devido à dívidas, a UNORP (São José do Rio Preto, SP) apresentou uma lista grande de professores demitidos e prometeu ampliá-la antes do final deste ano. Logo em seguida, a UNIP (São José do Rio Preto, SP) também anunciou demissões. Vale informar que os professores demitidos não têm os direitos trabalhistas respeitados (tenho menos informações a respeito da USF, mas sei que a UNORP, a UNIRP e a UNIP, simplesmente, nunca recolheram o FGTS e, com cinismo, recomendam a seus demitidos que procurem um advogado).

Dessa vez, o pensamento “Antes ele do que eu” não deu muito certo, porque, ao menos na UNORP, os professores que ficaram não receberam o pagamento de dezembro e têm medo de que, ao cobrar a direção da universidade, possam aborrecer alguém e acabar incluídos na próxima lista de demitidos.

Vale uma reflexão a respeito desse quadro.

A população, de um modo geral, não sabe o que é ou para que serve uma universidade. Por causa isso, paira no ar uma ideia de que temos todos de ser práticos e valorizar os cursos práticos. Por esse motivo, os cursos técnicos estão, momentaneamente, em alta. Digo momentaneamente porque a crise das universidades, que forma os professores dos cursos técnicos, logo os atingirá também. Igualmente, as universidades públicas, responsáveis pela maior parte dos trabalhos de pesquisas, já são atingidas. Isso porque as pesquisas foram, inesperadamente, tidas como desnecessárias, uma vez que a população, de um modo geral, não liga desenvolvimento com pesquisa com universidade.

Se fosse possível que um plano de um país apenas com profissionais técnicos desse certo, e que esses profissionais não precisassem contar com direitos trabalhistas… (esse plano é tão mirabolante que nem dá para levar adiante tal raciocínio).

Gostaria de dizer aos professores que estão perdendo o emprego, que assisto com grande indignação e faço votos de que, em breve, no novo ano que se inicia, tenhamos trabalhadores mais indignados e muito mais dispostos a mudar esse quadro.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Esse novo partido…


De repente, pelo direito de portar armas estamos oferecendo os direitos trabalhistas, o direito à saúde gratuita, o direito à educação gratuita, entre outros. Dizem que essa troca acontece para favorecer uma suposta desoneração do Estado; mas, até agora, nenhum de nossos imposto foi cancelado e abrir uma empresa no governo Bolsonaro continua tão complicado quanto era no governo Lula.

Curiosamente, o partido Aliança pelo Brasil, ao contrário do que o nome diz, não quer alianças; foi criado para possibilitar o exercício da autoridade de um só homem, para acabar com as tentativas de diálogo e para promover a indústria armamentista. Já foi percebido que Bolsonaro não preside o Brasil; ele, na verdade, usufrui do cargo de presidente trabalhando em benefício próprio e, para ele, nada mais importa além da manutenção desse poder.

Conforme foi divulgado, a escultura de cartuchos é uma obra do artista Rodrigo Camacho, encomendada pelo deputado Delegado Péricles (PSL). Essa escultura poderia ser apenas mais um monumento ao mal gosto — como aquelas réplicas da Estátua da Liberdade em frente às lojas Havan. Contudo, essa não é apenas uma questão estética, pois faz apologia à violência, autorizando, por exemplo, o vandalismo do deputado Márcio Tadeu A. Lemos (PSL) na exposição do Dia da Consciência Negra, na Câmara dos Deputados; ou o do deputado Daniel Silveira (PSL), durante a campanha, quando quebrou a placa em homenagem a Marielle Franco. Autoriza também a morbidez do governador Wilson José Witzel (PSC), que faz questão de acompanhar pessoalmente ações policiais que podem resultar em morte — não para conter os excessos dos agentes, mas para incentivá-los.

A conta grande do governo Bolsonaro ainda não chegou, mas vai chegar. Já temos notícias de políticos, artistas e pesquisadores exilados. Temos notícias de morte de políticos (Marielle Franco), e de políticos ameaçados (Marcelo Freixo). Temos também notícias de morte de inocentes (Ágatha Félix). Ainda assistimos a uma tentativa de aprovação de um “excludente de ilicitude”, que tem por fim o uso de força letal contra manifestantes que se juntarem contra o governo. Apesar disso, a conta grande ainda não chegou, ainda está por chegar. Ela virá na forma duma ampliação das diferenças sociais, suas consequências e uma grande dificuldade de reversão do quadro.

Recentemente, li a crônica “É preciso também não perdoar”, de Clarice Lispector. É uma crônica curtinha na qual ela discute a tolerância com o agressor e termina dizendo que

“Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo. E tornar-se primário a ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo” (Todas as crônicas, p. 148).

Já se percebe que estamos em guerra. O radicalismo político de agora é intransponível. O inimigo já apresentou as armas, está em marcha acelerada e muito disposto a matar. Sem metáfora e sem simbolismo: morte simples e concreta. É preciso iniciar uma reação imediatamente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A militância política de Katerina Gógou


Semelhanças entre o terrorismo anarquista grego e a ameaça de criminalização dos movimentos sociais brasileiros


Comunicação apresentada em 05 de junho de 2019, no “VII Congresso Nacional do PPG-Letras e XX Seminário de Estudos Literários: Políticas da literatura”, que neste ano comemorou os 40 anos do Programa de Pós-Graduação em Letras da UNESP, Câmpus São José do Rio Preto.


Nicolas Pelicioni de Oliveira: Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto, na linha de pesquisa “Perspectivas Teóricas no Estudo da Literatura”, com o projeto “A construção do mito em Katerina Gógou: a biografia como elemento de interferência na recepção da obra literária”


Comunicação


Com o projeto “A construção do mito em Katerina Gógou: a biografia como elemento de interferência na recepção da obra literária” pretendo mostrar como o autor empírico pode interferir no entendimento que se tem de sua obra ao ficcionalizar informações de sua história pessoal.

A peculiaridade de Katerina Gógou, no que diz respeito a essa ficcionalização, é sua proximidade e até mesmo militância junto a grupos de extrema esquerda. São grupos anarquistas, mais de um, e, o mais famoso talvez tenha sido o “Organização Revolucionária 17 de Novembro” (Επαναστατική Οργάνωση 17 Νοέμβρη). Como de tempos em tempos o grupo muda de nome, atualmente é conhecido como “Luta revolucionária” (Επαναστατικός Αγώνας). Essa militância é mencionada insistentemente na obra poética da autora.

Recentemente, em janeiro de 2017, aconteceu a prisão de uma das lideranças do grupo “Luta revolucionária”, Panagiota Roupa, conhecida como Póla. A prisão dessa líder teve repercussão internacional, sendo noticiada, por exemplo, pelo jornal norte-americano The New York Times com a manchete “A mais procurada terrorista grega é presa nos subúrbios de Atenas” (Greece’s Most-Wanted Terrorist Is Arrested in Athens Suburb, 05.jan.2017). De fato, o termo “terrorista” é também encontrado na poesia de Katerina Gógou; contudo, o termo “terrorista” parece merecer nova interpretação. A exemplo da proposta de lei sugerida no Brasil pelo então candidato à presidência, Jair Bolsonaro (“Proposta de Bolsonaro, votação da ampliação da lei antiterrorismo é adiada no Senado”, Estadão, 31.out.2018), que poderia criminalizar movimentos sociais, abre uma série de possibilidades interpretativas a respeito do que terá sido o “terrorismo” em relação a Katerina Gógou.

Observo que esse grupo anarquista, “Luta revolucionária”, está de fato envolvido em conflitos com a polícia e realmente pratica atos de vandalismo. É muito provável que tenha sido ação desse grupo a invasão e pichação da embaixada brasileira em Atenas, no dia 20 de fevereiro de 2019, em protesto contra a postura machista, homofóbica e racista do presidente Jair Bolsonaro, como afirma o jornal Cruzeiro do Sul, do dia 25 de maio de 2019. Esse tipo de ação assemelha-se às praticadas por Katerina Gógou. Quanto à acusação de terrorismo, a poeta manifesta-se no livro O mês das uvas geladas (1988) nos seguintes termos:

Terrorismo: Domínio por meio daviolência. Terror.E terrorista quer dizer o quê?Não quero a resposta dos que o inventaram.Peço a resposta dos sem fôlego.

A persona poética não se importa com os inventores da palavra “terrorismo”, que são aqueles que a acusam, mas com aqueles que se mobilizaram por não terem opção ou por já estarem “sem fôlego”. Nesse caso, os terroristas são os que sofrem algum tipo de opressão social.

É muito significativa essa mudança do termo “manifestantes” para “terroristas”, pois as mudanças quanto ao entendimento jurídico que se passará a fazer de grupos constituídos por minorias sociais pode não apenas intensificar a opressão como também justificar o uso de violência. Vale mencionar que o terrorismo atual passou a ser entendido como muito mais belicoso após o ataque ao World Trade Center, nos Estados Unidos. Ainda no governo progressista de Barack Obama, o terrorista Osama Bin Laden pôde ser sumariamente executado numa ação criticada dentro e fora dos Estados Unidos. Apesar da brutalidade do assassinato, o jornalista Clarke escreveu no jornal The New York Times que,

[o]s Estados Unidos precisavam eliminar Osama Bin Laden para satisfazer um clamor por justiça e, em menor medida, encerrar o mito de sua invencibilidade. Mas jogar o corpo de Bin Laden no mar não encerra a ameaça terrorista, tampouco acaba com a motivação dos apoiadores do Al Qaeda (02.maio.2011).[1]

O ataque terrorista do dia 11 de setembro de 2001 fez despertar o que há de pior na belicosidade dos Estados Unidos e, mais do que isso, parece ter autorizado toda uma prática de tortura e execuções que, aparentemente, vinham sendo abandonadas. Dado o caráter hegemônico da economia norte-americana, as práticas que lá são produzidas acabam por influenciar práticas ao redor do mundo. Muito provavelmente, em seus dias, Katerina Gógou, como terrorista, não correria os mesmos riscos daqueles que são acusados de terrorismo depois do ano de 2001.

A política armamentista do governo Bolsonaro, que, durante a campanha, demonstrava ser favorável à execução sumária, como atestam um grande número de entrevistas com o então candidato à presidência; agora, mesmo antes de ter implantado os seus projetos — dentre eles é exemplo a lei anticrime proposta pelo ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro —, a intenção já faz aumentar não só os casos de agressividade como também os números da violência policial, como atesta o levantamento do jornalista Alfredo Henrique para a Folha de S. Paulo. Segundo o jornalista, as mortes provocadas por policiais em serviço foram 48% maior no mês de março de 2019, que somam 64 suspeitos mortos, em relação ao mesmo mês do ano anterior, 43 mortos.

No dia 24 de fevereiro de 2019, Guilherme Boulos, professor, coordenador do Movimento Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo, que foi candidato à Presidência da República pelo PSOL em 2018, denunciou por meio de redes sociais a agressão e a ameaça de morte que sofreu o líder do MTST Goiás, que, ao perguntar ao policial se havia um mandato teve como resposta a exibição de um fuzil e a ameaça: “Aqui está o meu mandato. Fala alguma coisa de novo”. Como explica Boulos:

Não é a primeira ameaça que sofremos, mas não tenho dúvidas de que a postura e os atos do presidente Jair Bolsonaro, todos no sentido de criminalizar os movimentos sociais, são lidos como uma carta branca para a truculência do Estado (24.fev.2019)

Em procedimento que faz lembrar Manuel Bandeira em “Poema tirado de uma notícia de jornal”, Katerina Gógou registra, sob a interrogação “Mas não há Estado?”, que é um de seus poucos poemas que recebem título, a invasão de um domicílio. No poema seguinte, sem título, ambos do livro Repatriação, publicado postumamente (2004), registra a ação policial que resultou na morte do adolescente Michael Kaltézas (1970-1985), entre outros três manifestantes adultos.


MAS NÃO HÁ ESTADO?[2] A Tribuna de Domingo[3] 11.9.1978  REVISTA DO DOMICÍLIO PARA INVESTIGAÇÃO E DETENÇÃO, INSPEÇÃO E CONFISCO O título anuncia um final previsível. EM ATENAS, HOJE, 11º DIA DO MÊS DE JULHO DO ANO DE 1978, TERÇA-FEIRA, ÀS 4h que eu deite um cobertor sobre mim e em toda parte, nas janelas. Um que pernoita é presa de seus vizinhos traíras. Um poeta que escreve é uma criança muito muito pequena, tem febre durante a noite. Age e vive automaticamente, é ignorante da lógica do perigo. Imagina o seu próprio combatente como acusador das injustiças cometidas por todo lado. Por isso sente frio. VIEMOS PARA O CUMPRIMENTO DA REVISTA DO DOMICÍLIO E CAPTURA DO PROCURADO, COM ESCOLTA DE FORÇA POLICIAL, TENDO INFORMAÇÕES SEGURAS DE QUE O PROCURADO ESCONDE-SE EM SUA RESIDÊNCIA. ENTRAMOS NO PRÉDIO COM USO DAS CHAVES. OS HOMENS DAS FORÇAS ARMADAS TOMARAM O CONDOMÍNIO PELOS DOIS LADOS DA ESCADARIA…

Os elementos narrados em primeira pessoa na obra poética de Katerina Gógou estão próximos de sua história pessoal, contudo, ela é muito consciente de não estar escrevendo uma biografia e, muito sem cerimônia, a persona poética que fala leva o leitor a enganos. No poema que se segue ao “Mas não há estado?” são apresentados nominalmente as vítimas de um ataque policial; a saber: Kassímis, Tsirónis, Tsoutsouvís, Kaltézas, Prékas. Informações como essas, insistentemente colocadas em literatura, prestam-se, por um lado, a induzir o leitor a uma leitura biografista; por outro, de fato a registrar um momento histórico.

Para encerrar esta comunicação, lembro que, no Brasil, estão entre os acontecimentos brutais recentes a comemoração que o governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), fez do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Esse ato de afronta coloca as forças institucionais em estado de guerra, aparentemente, contra seus próprios cidadãos. Por vezes, é a arte que faz a denúncia das atrocidades de forma mais contundente. Por exemplo, em situação análoga à de Katerina Gógou, o grupo de RAP Racionais MC’s denunciou o massacre do Carandiru, em 1992, apontando nominalmente o responsável:

Ratatatá, Fleury e sua gangueVão nadar numa piscina de sangueMas quem vai acreditar no meu depoimento?Dia 3 de outubro, diário de um detento(JOCENIR; BROWN, 2018, p. 89)

A arte assim é apresentada não apenas como contestação de uma ordem social absurda, mas, principalmente, como denúncia da brutalidade das autoridades. A realidade brasileira presente permite algum entendimento, por analogia, a respeito do que terá sido o contexto ditatorial e militar no qual Katerina Gógou produziu sua obra. Essa contextualização será importante para o desenvolvimento do meu trabalho de pesquisa A construção do mito em Katerina Gógou.

Referência

BOULOS, Guilherme. Governo Caiado entra sem mandado e faz ameaças de morte em acampamento do MTST em Goiânia. Instagram. 24 de fevereiro de 2019. Disponível em https://www.instagram.com/p/BuQ6AHjAQfb/. Acessado em 24.fev.2019.

CLARKE, Richard A. Bin Laden’s Dead. Al Qaeda’s Not. The New York Times. 02 de maio de 2011. Disponível em: https://www.nytimes.com/2011/05/03/opinion/03clarke.html?searchResultPosition=2. Acessado em 26.maio.2019.

GÓGOU, Katerina. Nóstos [Repatriação]. In: ______. Tóra na doúme eseís ti tha kánete: poiémata 1978-2002 [Agora veremos o que vocês vão fazer: poemas 1978-2002]. Atenas: Edições Kastaniotis, 2013.

GÓGOU, Katerina. O mínas ton pagoménon estafilión. [O mês das uvas geladas]. In: ______. Tóra na doúme eseís ti tha kánete: poiémata 1978-2002 [Agora veremos o que vocês vão fazer: poemas 1978-2002]. Atenas: Edições Kastaniotis, 2013.

GÓGOU, Katerina. Tóra na doúme eseís ti tha kánete: poiémata 1978-2002 [Agora veremos o que vocês vão fazer: poemas 1978-2002]. Atenas: Edições Kastaniotis, 2013.

HENRIQUE, Alfredo. Número de mortos em confrontos com policiais sobe 48%. Folha de S. Paulo. 03 de abril de 2019. Disponível em https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2019/04/numero-de-mortos-em-confrontos-com-policiais-sobe-48.shtml. Acessado em 25.maio.2019.

JOCENIR; BROWN, Mano. Diário de um detento. In: RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

MAGRA, Iliana. Greece’s Most-Wanted Terrorist Is Arrested in Athens Suburb. The New York Times. 05 de janeiro de 2017. Disponível em http://www.nytimes.com/2017/01/05/world/europe/panagiota-roupa-arrested-athens.html?emc=edit_th_20170106&nl=todaysheadlines&nlid=72348413&_r=0. Acessado em 05.jan.2017.

TRUFFI, Renan. Proposta de Bolsonaro, votação da ampliação da lei antiterrorismo é adiada no Senado. O Estado de S. Paulo. 31 de outubro de 2018. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,proposta-de-bolsonaro-votacao-da-ampliacao-da-lei-antiterrorismo-e-adiada-no-senado,70002576840. Acessado em 10.jan.2019.





[1] The United States needed to eliminate Osama bin Laden to fulfill our sense of justice and, to a lesser extent, to end the myth of his invincibility. But dropping Bin Laden’s corpse in the sea does not end the terrorist threat, nor does it remove the ideological motivation of Al Qaeda’s supporters.
[2] Tradução minha e de Anthee Bezioula.
[3] Το βήμα της Κυριακής, título de um jornal ainda hoje em circulação.

domingo, 28 de abril de 2019

Uma Questão Filosófica


Diante do caráter utilitário das novas políticas ou diretrizes educacionais, acabei por iniciar minha mais recente aula no Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus fazendo a seguinte pergunta aos alunos “Pra que a gente serve nesse mundo?”. É uma pergunta séria, de fundo filosófico e seria totalmente adequada ao viés utilitário da diretriz educacional bolsolóide, não fosse meu posicionamento contrário a essa diretriz. 

Como trabalho com adolescentes, já era de se esperar que alguém respondesse, entre risinhos de colegas, “pra nada”. Foi exatamente o que aconteceu; mas não devia ser uma resposta para causar riso, pois a resposta “séria” que eu queria era essa mesmo! Expliquei para os alunos que, na verdade, só os objetos servem — a mesa serve, a cadeira serve... Pessoas não servem! Nós não servimos para nada! Nós existimos e nossa existência tem de estar acima desse “servilismo”! 

A maioria de nós, em algum momento da vida, teve ou tem de se submeter a uma rotina estressante na qual o despertador nos tira do melhor do sono para exercermos uma atividade muito útil e repetitiva até às cinco ou seis horas da tarde. A recompensa por esse serviço em que servimos para alguma coisa será um salário. Se o salário for bom, ele nos possibilitará a experiência de alguns prazeres que também não servem para nada, como, por exemplo, uma viagem, um jantar com amigos, um show de rock, uma noite no teatro... — coisas inúteis, mas que, justamente por serem inúteis, tornam nossa existência suportável. 

As Ciências Humanas, especialmente a Filosofia e a Sociologia, pensam, analisam, criticam, entre outras coisas, essa “utilidade” dos seres humanos. Uma das constatações a que se chega é também uma pergunta: “A quem somos úteis?”; “Quem lucra com o sacrifício do meu tempo de vida dedicado ao trabalho?”, em resumo, “Com quem fica o dinheiro do meu trabalho?” Vale a pena lembrar que, nesse exato momento, está sendo discuta a reformar da Previdência — políticos estão decidindo o quanto o trabalho deve valer para o trabalhador ou, mais precisamente, o quanto é possível lucrar com o trabalho do trabalhador. Curiosamente, o trabalhador não é convidado a participar da discussão! 

Claro que essa não é a primeira vez que o Governo Federal retira recursos financeiros da Educação. A diferença é que, até agora, quando acontecia, ficava com a universidade a escolha de a quais cursos distribuir os cortes (tradicionalmente, os cortes acontecem na área de Humanas mesmo!). Dessa vez, o corte foi direcionado: Filosofia e Sociologia. Coincidentemente, esse corte acontece na mesma semana em que uma propaganda televisiva desagradou o presidente por mostrar diversidade. 

Militares golpistas diziam preferir o cheiro de cavalos ao cheiro do povo. É com esse espírito elitista que o governo trabalha para aumentar ao máximo, em curtíssimo prazo, o lucro do empresariado às custas do trabalhador. Do mesmo modo, nota-se um esforço para desarticular os instrumentos sociais que permitem uma crítica aos abusos das classes dominantes. Quando o trabalho estiver feito, a parcela pobre da sociedade estará numa situação deplorável e a mobilidade social será muito mais complicada. 


domingo, 31 de março de 2019

Sobre comemorar 1964











Nasci em 1973, numa cidade interiorana e assim, por estar longe dos grandes centros, imagina-se que também pudesse estar longe da violência da ditadura. Contudo, apesar da distância, talvez porque meu pai fosse sindicalista, petista ligado à CUT — do tipo que ajudou muitos trabalhadores a se aposentarem —, minhas lembranças de infância incluem vivências ou experiências daquela situação política tão restritiva.

No fim dos anos 70, Lula começava a despontar como uma liderança, Chico Buarque já era um artista consagrado, nós sabíamos o que era o militarismo e, principalmente, sabíamos que a violência ficava impune. Meu pai tinha medo de que a violência daqueles dias nos alcançasse porque, devido à sua atividade sindical, de vez em quando ele recebia ameaças de morte.

Há um episódio desses dias de infância que juntou a peste que eu era com o momento de política esquisita que vivíamos.

Um dia, o museu de Mirassol recebeu uma exposição de telefones. Não me lembro se eu e meus colegas chegamos a essa exposição espontaneamente ou se foi alguma professora que nos levou até lá. Em todo caso, para sabermos como era usar um telefone antigo — isso foi muito antes do celular —, um deles estava ligado à rede. Fizemos uma fila e cada um faria uma ligação para onde quisesse. Não tive dúvida: passaria um trote em alguém! Telefonei para minha própria casa e, sem me identificar, disse que ia matar todo mundo!

Eu devia ter onze ou doze anos e meu pai devia ter alguns anos a menos do que tenho hoje. Com onze anos a gente entende alguma coisa, mas sem a profundidade que as situações exigem. Imediatamente depois de passar o trote, entendi o tamanho da besteira que tinha feito. Peguei minha bicicleta e pedalei para casa — justamente a bicicleta e a facilidade de ir para casa faz com que a visita ao museu pareça não ter sido um acontecimento ligado à escola!

A brincadeira aconteceu durante o dia e quem atendeu o telefonema foi meu pai. Ao chegar em casa, ele estava assustado e o telefone fora do gancho. Ainda assim, a brincadeira ficou de graça! Talvez pelo alívio de saber que foi só um trote, não teve chinelada, nem castigo, nem nada!

Havia medo, uma suspeita no ar e não era só em casa. Todo mundo sabia ou ao menos desconfiava, pois sempre há incautos, que as leis, a polícia e, consequentemente, a justiça não eram confiáveis. Mais tarde, a Constituição de 1988 veio para amenizar o problema.

Fico imaginando o que eu teria para conversar com meu pai hoje. Quando ele morreu, minha participação em atividades políticas ainda era pequena. No final das contas, ainda que não tenha sido minha intenção, o trabalho intelectual que faço agora vai muito de encontro justamente ao que ele gostaria que eu fizesse. Se ele estivesse aqui, é possível que neste domingo estivéssemos nos perguntando se um dia o Brasil vai romper com esse projeto de país do futuro e passar a ter um presente.

Não há nada o que comemorar.


domingo, 17 de março de 2019

Porque falar de Marielle Franco















Marielle Franco morreu no dia 14 de março de 2018 e, como tenho visto Internet afora, muita gente acha que o assunto está enchendo o saco. 

O problema é que estamos vivendo numa sociedade extremamente violenta. No pé em que as coisas estão, qualquer cara fechada ou palavra mais áspera parece que vai resultar em pancadaria. Os atritos acontecem no trânsito, nas filas de banco ou de supermercado, nos ônibus e, também, entre amigos. 

Por um acaso, sou alto e forte. Sempre fui. Quando criança eu não sofria bullying porque eu era o que batia. Acredito que não o praticava, mas meu pai dizia que “quem bate esquece, quem apanha é que lembra”; então, eu talvez me tenha esquecido! De todo modo, quando cheguei à adolescência brigar virou motivo de vergonha e, por isso, nunca mais briguei. 

Além de ser alto e forte, sou homem! De vez em quando, numa discussão com uma namorada, por exemplo, mudo meu tom de voz. Quando isso acontece, qualquer que seja o motivo da discussão, ela cede para evitar ser agredida. Entre o primeiro beijo de namorada, lá aos meus quinze anos, até o entendimento de que, num relacionamento homem-mulher, as mulheres têm em perspectiva uma agressão, passaram-se mais de vinte anos. Venho aprendendo a conter meu tom de voz, mas é difícil, porque, além de tudo, sou exaltado! 

Não são somente as mulheres que têm medo. Todos nós sabemos que uma explosão de fúria pode nos atingir a qualquer momento. Aguardamos que aconteça na esquina ou dentro de casa... não foi hoje, mas podia ser. Afinal, tudo à nossa volta é violento: nossas músicas falam de violência, nossos filmes e os que importamos retratam a violência, nosso vocabulário é violento. 

Uma vez, ensaiávamos uma mudança. O famigerado politicamente correto tinha por objetivo um abrandamento de muitas das formas de agressividade. As políticas inclusivas tinham por fim o acolhimento de quem traz consigo alguma fragilidade a mais. Esse início de mudança estava relacionado à civilidade e pretendia criar uma sociedade mais acolhedora na qual seus cidadãos seriam capazes de mais delicadeza uns com os outros. 

Astutamente, por parte dos que têm condição de agredir, esses princípios de sociabilidade foram difamados. Passaram a ser entendidos como uma inversão de valores e o não enfrentamento voltou a ser visto como covardia. Esses difamadores não conseguem defender ideias, para eles a força bruta sempre será vantagem. A Marielle Franco foi uma das vítimas deles. 

No dia em que defendi meu trabalho de mestrado rememorava-se um ano do assassinato de Marielle Franco. Ela era seis anos mais nova que eu e também defendeu um mestrado. Talvez por causa da coincidência, fui procurar a dissertação dela. Está na Internet; foi defendida pela Universidade Federal Fluminense. Trata-se de um bonito trabalho sobre segurança pública “UPP — A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro”. 

Vê-se que, como cidadã, Marielle estudou o problema que pretendia enfrentar e elegeu-se vereadora para acabar justamente com o tipo de crime que a vitimou. Também se vê que ela trabalhou com muito mais seriedade e competência que seus adversários. Não por acaso, essa morte faz com que me lembre da Apologia de Sócrates, quando, dirigindo-se aos atenienses, ele diz não achar possível um homem melhor ser ferido por um outro pior. Ele sabia que permaneceria na história e que seu agressor seria esquecido. 

A violência contra a qual Marielle Franco lutava ainda está longe de acabar. Por isso, enquanto moradores de favelas no Rio de Janeiro forem vítimas de violência, Marielle será presente; enquanto mulheres e, especialmente, mulheres negras forem agredidas, Marielle será presente; enquanto a estupidez tomar o lugar do diálogo, Marielle será presente. 

Ainda temos muito o que falar sobre Marielle.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Algumas palavras sobre gramática II


Texto para discussão na aula de Gramática do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus, no dia 10 de março de 2019.

PDF

Gramática: o que é e para que serve


Variação linguística


Já foi motivo de polêmica o livro didático Por uma vida melhor, destinado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), assim como a questão 31 do ENEM 2018, que discutia o pajubá. Como dito na aula 1, a norma gramatical que se leva aos alunos é a da classe dominante, portanto, antes de continuar, vamos ler a crítica que o professor Bagno (2009) faz respeito disso:


◦ a prioridade absoluta, no ensino de língua, deve ser dada às práticas de letramento, isto é, às práticas que possibilitem ao aprendiz uma plena inserção na cultura letrada, de modo que ele seja capaz de ler e de escrever textos dos mais diferentes gêneros que circulam na sociedade. Para ler e escrever, por mais óbvio que pareça, é preciso ler e escrever, e não, como sempre se acreditou, decorar toda uma nomenclatura gramatical numerosa, confusa e frequentemente contraditória, nem fazer análise sintática e morfológica de frases soltas, artificiais, irrelevantes, muitas vezes ridículas, práticas que não contribuem em nada com a verdadeira educação linguística dos cidadãos — com isso, o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado nas primeiras etapas da escolarização em favor de uma real inserção dos aprendizes na cultura letrada em que vivem; ◦ todos os aprendizes devem ter acesso às variedades linguísticas urbanas de prestigio, não porque sejam as únicas formas “certas” de falar e de escrever, mas porque constituem, junto com outros bens sociais, um direito do cidadão, de modo que ele possa se inserir plenamente na vida urbana contemporânea, ter acesso aos bens culturais mais valorizados e dispor dos mesmos recursos de expressão verbal (oral e escrita) dos membros das elites socioculturais e socioeconômicas; o acesso e a incorporação dessas variedades urbanas de prestigio se fazem pelas práticas de letramento mencionadas acima, por meio do convívio intenso, sobretudo no ambiente escolar, com os gêneros textuais mais relevantes para a interação social nos modos de vida contemporâneos; ◦ é imprescindível reconhecer que essas variedades urbanas de prestígio não correspondem integralmente às formas prescritas pelas gramáticas normativas, isto é, não correspondem à norma padrão tradicional: uma grande quantidade de regras prescritas pela norma-padrão tradicional já caíram na obsolescência, já deixaram de ser seguidas até mesmo pelos escritores mais consagrados nos últimos cem anos (se não mais), assim como muitos usos não normativos já se incorporaram plenamente na língua falada das camadas sociais privilegiadas e na língua escrita nos gêneros textuais mais prestigiados — com isso, embora o acesso do estudante à norma-padrão tradicional também faça parte da sua educação linguística (sobretudo pela e para a leitura dos clássicos), este acesso deve ser feito numa perspectiva crítica, para que não se caia na velha prática (anti)pedagógica de condenar todas as inovações linguísticas (resultantes dos inevitáveis processos de mudança das línguas) como se fossem indícios da “ruína” e da “decadência” do idioma; ◦ é passada a hora de se produzir uma nova gramática de referência do português brasileiro contemporâneo que venha a substituir as gramáticas normativas que ainda circulam no mercado, eivadas de inconsistências teóricas e de contradições metodológicas, inspiradas em postulados não científicos e em preconceitos sociais, cristalizados antes do início da era cristã; uma nova gramática que descreva e autorize o que já está pacificamente incorporado à atividade linguística de todos os brasileiros, inclusive dos qualificados de “cultos”; constitui um atentado aos direitos do cidadão continuar a prescrever, como únicas corretas, regras gramaticais que entram em flagrante conflito com a intuição linguística do falante e que não correspondem ao estado atual da língua, nem sequer em seus usos escritos mais formais; ◦ a prática da reflexão linguística é importante para a formação intelectual do cidadão; com isso, ainda existe lugar, em sala de aula, para o estudo explícito da gramática, desde que ele não seja visto como um fim em si mesmo nem como o aprendizado de um conjunto de dogmas, de verdades absolutas e imutáveis: a reflexão sobre a língua deve ser feita por meio da investigação de fatos linguísticos reais, em manifestações faladas e escritas autênticas, e por meio do confronto crítico entre as abordagens tradicionais e as teorias científicas mais recentes — se a prática da pesquisa, da reflexão sobre a constituição histórica dos campos de conhecimento, da contestação e revisão dos postulados científicos ocorre em todas as demais disciplinas do currículo escolar, não existe justificativa alguma para que ela não ocorra também nas aulas de língua: se os professores de ciências não podem mais ensinar que Plutão é um “planeta”, por que os professores de português devem continuar a ensinar que você é mero “pronome de tratamento”, que existe uma “flexão de grau” ou que o verbo preferir não admite construções comparativas do tipo “prefiro mil vezes cinema do que teatro”? ◦ a variação linguística tem que ser objeto e objetivo do ensino de língua: uma educação linguística voltada para a construção da cidadania numa sociedade verdadeiramente democrática não pode desconsiderar que os modos de falar dos diferentes grupos sociais constituem elementos fundamentais da identidade cultural da comunidade e dos indivíduos particulares, e que denegrir ou condenar uma variedade linguística equivale a denegrir e a condenar os seres humanos que a falam, como se fossem incapazes, deficientes ou menos inteligentes — é preciso mostrar, em sala de aula e fora dela, que a língua varia tanto quanto a sociedade varia, que existem muitas maneiras de dizer a mesma coisa e que todas correspondem a usos diferenciados e eficazes dos recursos que o idioma oferece a seus falantes; também é preciso evitar a prática distorcida de apresentar a variação como se ela existisse apenas nos meios rurais ou menos escolarizados, como se também não houvesse variação (e mudança) linguística entre os falantes urbanos, socialmente prestigiados e altamente escolarizados, inclusive nos gêneros escritos mais monitorados (BAGNO, 2009, 38-40).

Formação dos idiomas


As línguas europeias modernas tiveram início por volta do ano 1000 d.C. No processo de mudança, as línguas se transformaram; o inglês, por exemplo, que era uma língua casual (casos gramaticais) e dispunha de três gêneros (masculino, feminino e neutro), foi bastante simplificado.



Curiosidade: a forma thou era a segunda pessoa do singular em inglês e you, a do plural. Para imitar a formalidade de idiomas como o português (Portugal), o francês, o italiano, o espanhol e o alemão, o inglês começou a usar a forma plural you e, com o passar do tempo, a forma singular acabou perdida.




O que são línguas casuais?

Os casos gramaticais dizem respeito a um sistema complexo de concordância. Vamos comparar, por exemplo, a declinação de um adjetivo inglês com um português e um latino.

1.

Masculino
Feminino
Singular
beautiful
beautiful
Plural
beautiful
beautiful

2.

Masculino
Feminino
Singular
bonito
bonita
Plural
bonitos
bonitas

3.

masculino
feminino
neutro

Sg.
Pl.
Sg.
Pl.
Sg.
Pl.
Nom
Pulcher
Pulchri
Pulchra
Pulchrae
Pulchrum
Pulchra
Ac
Pulchrum
Pulchros
Pulchram
Pulchras
Pulchrum
Pulchra
Ab
Pulchro
Pulchris
Pulchra
Pulchris
Pulchro
Pulchris
Dat
Pulchro
Pulchris
Pulchrae
Pulchris
Pulchro
Pulchris
Gen
Pulchri
Pulchrorum
Pulchrae
Pulchrarum
Pulchri
Pulchrorum
Voc
Pulchre
Pulchri
Pulchra
Pulchrae
Pulchrum
Pulchra


Há línguas modernas que utilizam o sistema casual, por exemplo, entre outras, o alemão e o grego.

As línguas mudam

Esses exemplos foram extraídos de Bagno (2006).
1. Rotacização do L nos encontros consonantais

Creusa, Cráudia, grobo, pranta, ingrês, broco, mas igreja, praia, frouxo, escravo 

Latim
Francês
Espanhol
Português
ecclesia
église
iglesia
igreja
plaga (litus)
plage
playa
praia
fluxus
flou
flojo
frouxo
esclave
sclavo
escravo


2. Eliminação das marcas de plural redundantes

Quero te dar as lindas flores amarelas que brotaram no meu jardim.


3. Transformação de LH em I

Português
Francês
Português (variante)
abelha
abeille
abêia
alho
ail
ai
batalha
bataille
bataia
colher (substantivo)
cuiller
cuié
falha
faille
faia
filha
fille
fia
palha
paille
paia
trabalhar
travailler
trabaiá

Transformação desde o latim:
tégula > teg’la > tegla > teyla > telha > têia



4. Simplificação das conjugações verbais

Verbo amar
Francês
Eu amo
Eu amo
J’aime
Tu amas
Você ama
Tu aimes
Ele ama
Ele ama
Il aime
Nós amamos
A gente ama
Nous aimons
Vós amais
Vocês ama
Vous aimez
Eles amam
Eles ama
Ils aiment


5. Transformação de -ND- em -N- 


— Tá veno aquele carro, se quis é, eu vendo! 



Na sentença acima, qual a diferença, além do “d”, entre “veno” e “vendo”, formas do verbo “ver” e do verbo “vender”?

6. Redução do ditongo OU em O

outro
ôtro
trouxe
trôxe
encostou
encostô

7. Redução do ditongo EI em E

beiço
beiço

brasileiro
brasilêro

deixa
dêxa
beijo
bêjo
cheiro
chêro
jeito
jeito

leigo
leigo

primeiro
primêro

queijo
quêjo
peito
peito
queixo
quêxo
seiva
seiva


8. Redução de E e O átonos pretônicos

Notem o “i” e o “u” tônicos:

e-i > i - i (bebida > bibida) | o - i > u - i (formiga > furmiga)

e - u > i - u (segundo > sigundo) | o - u > u - u (coruja > curuja)

E > I

alegria, avenida, bebida, Benedito, feliz, ferido, freguesia, medida, mentira, metido, pedido, pepino, periquito, preguiça, seguido, Severino

cabeludo, pendura, segunda, seguro, veludo

O > U

assobio, chovia, comida, cozinha, corria, domingo, dormir, folia, formiga, gorila, harmonia, notícia, podia, possível, Sofia

coruja, costume, costura, fortuna, gordura


Outro caso, o B e o M

boato, bocado, bodega, bolacha, boneca, borracha, botão, boteco

mocambo, moeda, moela, molambo, moleque, moqueca, morango, mostarda

9. Contração das proparoxítonas em paroxítonas

árvore
> 
arvre

música
> 
musga
córrego
> 
corgo
pássaro
> 
passo
cubículo
> 
cuvico
sábado
> 
sabo
fósforo
> 
fósfro
tábua
> 
tauba
glândula
> 
landra
víbora
> 
briba
glândula
> 
landra
sábado
> 
sabo
música
> 
musga
tábua
> 
tauba
pássaro
> 
passo
víbora
> 
briba


O latim e o português

Latim
Português

Latim
Português
ÁSINUS
ASNO
MIRÁCULUM
MILAGRE
BÁRBARUS
BRAVO
ÓPERA
OBRA
CÁLIDUS
CALDO
HÚMERUS
OMBRO
CUNÍCULUS
COELHO
PARÁBOLA
PALAVRA
CÓMPUTUS
CONTO
PERÍCULUM
PERIGO
DÍGITUS
DEDO
PÁUPER
POBRE
SPÉCULUM
ESPELHO
PÓPULUS
POVO
FÁBULA
FALA
QUADRAGÉSIMA
QUARESMA
FRÍGIDUS
FRIO
RÉGULA
REGRA
GÉNERUM (ac)
GENRO
SÓCERA
SOGRA
ÍNSULA
ILHA
TÉGULA
TELHA
HÓMINEM (ac)
HOMEM
TÉNEBRA
TREVA
LÍTTERA
LETRA
VÉTULU
VELHO
MÁCULA
MALHA
VÍRIDE
VERDE

MÁCULA, também dá origem a mágoa, mancha e mácula.

Conclusão 

Há muitos outros casos a serem analisados. O livro A língua de Eulália, de onde foram tirados esses exemplos apresenta vários outros. O importante é saber que todas as línguas, em qualquer época, apresentam formas variantes e estão em constante processo transformação. As mudanças que acontecem não são obra do acaso, nem da preguiça do falante, muito menos de alguma desinteligência. Tudo tem seu motivo e a gramática é um instrumento para o estudo desses fenômenos. 

Referência

BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim!: em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola editorial, 2009. 

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 15 ed. São Paulo: Contexto, 2006. 

Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

  Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sem...