sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Temporal

Esse poema, de 2001, não precisou ser refeito. Bastou-me revirar as páginas ─ na verdade já estava digitalizado, então o que fiz foi um serviço de cópia e cola. Um trabalho mais de bricolagem, como dizem os franceses, do que de escrita!

O texto descreve um dia de chuva em uma época em que eu tomava muita chuva...




De repente

As nuvens altas e claras

Jogam suas águas pro ar

Desprevenidos cá na terra

Procuram abrigo

Como se houvesse guerra




Soa o grito das mães


Lojas baixam suas portas


O que era pra daqui a pouco


Se resolverá amanhã


Somente amanhã



Numa breve trégua

O vapor se ergue do asfalto



Então

No vento forte

Nuvens baixas e negras

Cobrem toda cidade



Logo

Fugindo

Se vão todos


Espavoridos


Ultrajados

Sob a chuva


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Para aprender as moda

Em 1998 eu tocava guitarra e tinha muito interesse pela música norte-americana, especialmente o blues. Curioso é que alguns dos professores que tive eram, e ainda são, violeiros que contam histórias do universo da viola caipira. É muito curioso como essas histórias são semelhantes na cultura brasileira e estadunidense, muito do que é folclore por aqui, mutatis mutandis, também acontece por lá. (Mais tarde, bem mais tarde, comecei a estudar grego e descobri que muito da cultura afro-brasileira também está presente na Grécia.) Abaixo está minha versão para o pacto com o diabo.

Originalmente, o título desse conto era O diabo ensina o blues, mas isso foi em 1998, época em que eu era cristão e fazia sentido falar do diabo. Além do título mudei substancialmente o conto, pois num desses dias eu tive conhecimento da entidade Exu Tatá Caveira e, como gostei bastante das histórias que ouvi, ao invés de um pacto com o diabo, preferi falar de um trabalho feito na encruzilhada. Infelizmente ainda não conheço Umbanda e Candomblé o bastante para uma representação fiel, por esse motivo misturo moda de viola, blues, diabo e Tatá Caveira.




Esse é um causo lá dos norte, pois! Não tem por aqui. Será? É história de violeiro das banda de lá. De quem quer tocar essas moda diferente. Quando quer aprender e nunca consegue. Nunca, pois! Mesmo quando pratica todos os dia. Essas moda não se aprende...

O cabra fica frustrado, passa o dia praticando e nada. Tudo o que faz está errado, pois. Ele quer aprender demais. Quer de verdade, mas não consegue não. Tem como aprender não! Daí que tudo nele é angústia, ele pede pro divino das ajuda e implora, pois. Ninguém ajuda nada. É aí que ele apela, pois! Porque tem um diabo que ensina essas moda.

Ele veste preto e veste branco, vai até a encruzilhada levando charuto e cachaça. Pede, mas não acontece nada, pois. Meia noite ele gritas os Caveira, depois xinga os Caveira. Desanima, pois... Nada disso não existe não. Falação de povo que não tem o que fazer nem o que comer. Miséria.

É noite, ele vai dormir. Ele deita na cama lá na casa dele e sonha pesadelo dos ruim. Acorda com uma baforada quente e fedorenta bem na cara. Eita, metuendo pânico do cão! Ele acende a luz do quarto, mas não vê nada. Pesadelo que é, pois... Volta a dormir e tem outro pesadelo igualzinho. Ele não consegue atinar lembrança do pesadelo, só se lembra do hálito quente e podre. Pânico, pois.

Dessa vez ele não consegue dormir fácil, não. Perde o sono. Vai ler a Bíblia... Eita que o sono pega ele de jeito, mesmo de luz acesa. Aí tem outro pesadelo e não consegue acordar. O fedor quente e podre de enxofre enche o quarto, mas ele não acordar não, pois!

Na manhã seguinte o cheiro está nele, bem na pele. Não adianta banho nem perfume. Amanhece fedendo, pois. Enxofre. Ninguém percebe o cheiro. Esse fedor é coisa só no nariz dele. Ele fica encabulado, cheio de vergonha por causa do fedor, pois. O cheiro vai piorando. Na primeira sexta-feira depois da noite dos pesadelo, ele acorda que é só cansaço. Com dor de cabeça que parece que andou apanhando. O estômago embrulhado que parece que vai vomitar. Ele passa o dia sem conseguir fazer nada, até esquece das moda. Tem ódio de tudo, frustração, pois.

Eita que nessa noite ele sente que vai morrer! Sai de casa com a viola na mão, andando sem rumo. Procura e procura sem saber. Talvez elefante que quer cemitério pra morrer. Que nada, anda até encontrar chão de terra e vai longe nessa estrada, pois. Vai por ela e vai longe. Chega aonde cruza. No lugar onde a noite é mais escura, senta na encruzilhada. Toca as moda. Toca nada. A cabeça dói. Isso é pra lá das onze hora meia-noite do dia de sábado. É quando ele ouve a pergunta no vento:

— Quer sabe as moda? É claro, pois! Só que já foi, não foi? Agora é hora? Que vento que nada, a voz pergunta mais forte:

— Cadê a cachaça? Ele tem a cachaça.

Aí ele ouve que tem que se sentar. Ele se senta. Aí ele ouve que tem que pôr as duas mãos na terra. Ele põe. Então o Caveira aparece de capuz preto. Ele se lembra dos pesadelo. O Caveira começa a pisar as mão dele com casco duro. Ele não consegue tirar as mãos da terra e só ouve os osso estralando. Grita feito um porco. Ouve a risada. Ouve os ossos das mão quebrando. Vê o sangue das mão escorrendo pela terra.

Eita que quando os osso das mão estão quebrado até as unha, é quando o Caveira manda ele tocar as moda. Nessa hora ele pega a viola, mas que tocar que nada. Tudo nele dói... Mas vai parando de doer. As mão vão tomando jeito e ele começa a tocar tudo direitinho, pois.


Devagarinho o cheiro podre do enxofre vai sumindo e antes do dia clarear ele já toca todas as moda que ele queria. Do jeito que ele queria. Fica contente demais, pois! Só alegria! Mais aí é que vem. Todas as moda que ele tocar de hoje pra frente tem que ser pro Caveira. Se um dia, no futuro, ele arrependido não quiser mais o pacto que fez sabe o que acontece? Nesse dia os osso das mão dele vão começar a doer. Vão doer muito. Ele não vai conseguir nem pensar em tocar moda. Médico nenhum vai conseguir ajudar. Até o fim dos dias as mão dele vão ser do Caveira. Eita que no fim até a alma dele será do Caveira, se já não é. Quem quer aprender essas moda?


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Doença dos hipocôndrios

Esse texto não é dos mais antigos. Escrito no ano 2000, surgiu como uma tentativa de crônica e narrava um medo que eu vinha tendo de ficar doente. A personagem não tinha nome e também não era feminina ─ isso é coisa da reescrita que fiz agora. Acho que personagens com nome têm mais proximidade com o ficcional e a mudança de gênero parece facilitar o distanciamento do real, leva a ficção adiante e a diferencia da crônica.




Eram seis horas da manhã quando ela encarou a si mesma no espelho do banheiro. Notou alguns fios de cabelos brancos e disse baixinho, pronunciando seu nome completo:

─ Lizania Eduarda Fontes, você está ficando velha...

Repetiu o nome mentalmente lembrando de uma época da infância em que não gostava do nome Lizania, nem de Eduarda e era indiferente ao nome Fontes, herança deixada pelo pai.

Logo depois, sentiu doer o dente. Não é bem certo que doeu, na véspera ela quebrara um caroço de azeitona ao comer um pastel e ficou toda preocupada. Foi ao dentista.

Fazia um bom tempo que não ia ao dentista e talvez houvesse bastante cáries ─ coisa que justificaria o hálito estranho que havia percebido há algum tempo.

Não havia cáries. Fora feita apenas a limpeza e a aplicação de flúor. O mau hálito deve ter sido impressão ou talvez o estômago, algo em resposta à má alimentação e ao excesso de café.

Reparou que o intestino não funciona regularmente e, para piorar, a cor da urina não lhe parece normal. Considerou que, se continuar como está, logo terá úlceras no estômago e grandes pedras nos rins.

Foi ao médico certa de estar sendo acometida pela degeneração própria da idade. Mas não havia úlceras nem pedras... como pode ter tanta saúde se sente tanto cansaço com as atividades corriqueiras do dia a dia?

Tem certeza de que o convívio com fumantes lhe deve ter rendido um enfisema pulmonar ou qualquer outro dano causado pelo hábito tabagista alheio.

É uma fumante passiva e pode estar na iminência de um infarto cardíaco! A dor de cabeça, que sente esporadicamente, deve ser consequência de má circulação sanguínea no cérebro.

Afastou-se de amigas e amigos fumantes e procurou um cardiologista. O coração está lindo, disse o médico, mas a dor de cabeça é certamente um tumor, pensou consigo. Um tumor?

A dor não é aguda, contudo, vem notando que também não é esporádica. Tem-na percebido quase todos os dias. Voltou ao consultório perguntando a si mesma se os exames ou o próprio médico são confiáveis.

Um médico tão atencioso e seguro terá realmente tanta competência quanto aparenta? Ficou gripada e teve febre, por esse motivo faltou do trabalho por alguns dias.

O sol brilhou com a mesma intensidade o mês inteiro, pensava. Nada há que justifique uma gripe. Talvez estivesse confundindo os sintomas com os da dengue... Foi ao posto de saúde mais próximo.

Onde pode ter contraído a doença? Não era dengue, apenas gripe. No entanto, tem certeza de que há mais do que gripe. Possivelmente algum mal ainda não conhecido.

Sarou antes de procurar o médico, mas sabe que sobraram sequelas que estarão com ela pelo resto de sua vida. Ou talvez esteja exagerando; talvez esteja ficando louca...

Qual a diferença entre psicologia e psiquiatria? Não soube nem procurou saber, voltou à rotina que tinha antes da dor de dente ─ casa-trabalho, trabalho-casa ─, e reabilitou os amigos fumantes.

Dois meses depois foi atropelada por um ônibus escolar no fim da tarde. Houve alvoroço na esquina. Crianças gritando, trânsito congestionado.

Ela foi acordar em uma cama de hospital e não deixou que médicos a examinassem para procurar fraturas. Levantou-se e foi embora aborrecida.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Romance

Revirando os papéis, uma pequena parte já digitalizada, vou reencontrando meus textos... constato que boa parte da produção, infelizmente, é muito ruim! São textos que, no final das contas, cumpriram a função de exercício de escrita, mas apenas isso. Talvez nem isso, pois para a maior parte deles não há qualquer orientação literária que possa apontar um objetivo a ser alcançado.

O texto abaixo é de 1998. Não o considero um caso perdido! Tentei juntar, em forma de poema, o que se entende por romance, como gênero literário, com o romance amoroso.



Acento e ponto final
A palavra fica escrita:
─ não.
Resta o rancor
Na espera do som

Tenta novamente...
Com sinais de exclamação:
─ por favor!
Pouco adianta
O som chega e revolta

Então sublinha ou abre aspas
Diz com a máxima expressão:
─ Eu amo você!
Mas, no desânimo,
Quase desiste

Na última chance
Reticente
Faz a chantagem:
(lágrimas)
Pertinências...
Não sabe se vale

Finalmente
Mais espaço, outra linha

Novo capítulo

─ ...


Respira fundo antes...

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Desenho

Escrito em 1998, esse texto também é parte de minhas experiências de escrita.

Na época eu lia bastante a Cecília Meireles, que sempre fala de desenhos ─ por exemplo, nesses versos de Canção excêntrica:

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.


O trabalho que propus a mim mesmo foi o de dar vida a um retrato...



Para os olhos

Cores e formas


Luz e sombra

Cílios e sobrancelhas

Nariz e o contorno do rosto

Depois


O sorriso


Os cabelos

Escondem parcialmente as orelhas

(Antes de caírem sobre os ombros)

Falta o queixo e mais nada

É só colorir em pastel

Estarão prontos os olhos


Agora lhes dou lembranças

Saudades e alguma dor

(Não muita, pois se chora


borra a tela)


Nada de cores


Os fecho

Não castanhos, negros


Não verdes


Não azuis

Apenas um sonho

No rosto triste que sorri



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Planos para 2018

















Ao longo de muitos anos escrevi textos como experiências de escrita. Realmente não eram mais que isso: experiências de escrita ─ nasceram da sugestão de uma professora de cursinho; segundo a qual, para escrever boas redações devemos praticar todos os dias. O problema é que redação é um gênero que só existe na escola e só é praticado até entrarmos na faculdade. Depois escrevemos artigos, cartas, resenhas, resumos, crônicas, dissertação, tese (dissertação e tese a gente escreve uma só de cada, há malucos ou malucas que escrevem mais de uma, mas são casos excepcionais), enfim, paramos de escrever redações; eu parei!

Antes de parar, eu escrevi muita coisa! Não necessariamente redação, mas os demais gêneros todos. Alguns desses textos eu até acho que são legais e talvez seja hora de mostra-los. Assim, esse fica sendo um outro exercício de escrita: o exercício da reescrita! Entre outras coisas, o blog passará a ter um pouco mais de volume de textos, uma produção mais frequente, já que foram escritos previamente!

Começo com uma carta escrita em junho de 1998 ─ e lá se vão vinte anos… Não é uma carta comum; antes, uma carta de amor ou mais ou menos isso. Vamos ao texto:


Ao amor da minha vida,

Devido à intensa angústia causada pela sua repentina ausência, decidi, em comum acordo com meu coração, que não amo mais você. Sei que a solidão tende a aumentar, reconheço também que a velha rotina é um saco, mas, o que se há de fazer? – o abandono já é presente.

Tem mais: a partir de agora sou do mal, o que significa que sobreviverei sem lágrimas, e, pelo muito que me arrependa, não voltarei atrás. Pois tenho certeza, você, meu amor, que é do bem, estará sofrendo em dobro – coisa que só me dá satisfação!

Vou me desfazer de todas as pequenas lembranças, convencer os amigos de que já esqueci, ser indiferente ao ouvir o seu nome. Vou acabar com toda nossa parca esperança de reconciliação. – como disse: agora sou do mal.

Meu único medo é de que nessa dura separação você verdadeiramente me esqueça, pondo assim por terra todo meu projeto de vingança ─ envio esta carta com o pedido para que tal não aconteça: seja complacente ao meu rancor e não me esqueça jamais!


Cordialmente, seu novo inimigo.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dominguinhos





















Envelhecemos todos: eu, os meus amigos, as namoradas que tive... estamos todos velhos! Os cabelos brancos ou, no meu caso, nem isso — estou é careca! De vez em quando acontece uma amargura, como, por exemplo, a morte de alguém. Sim, chegamos a esse ponto!

Hoje, olhando papéis velhos que não deviam parecer tão velhos assim, pois o que tenho em mãos, especificamente, data de novembro de 1998. Trata-se de um documento assinado pelo instrumentista Paulo Moura, que foi diretor artístico do festival que recebeu seu nome, aqui na cidade de São José do Rio Preto.

Na verdade, fui levado a esses papéis e a essa lembrança pela despedida do músico Dominguinhos em julho de 2013. Acontecimento que também não deveria sinalizar um passado tão distante, afinal, são só quatro anos. A música dele traz de volta meus dias no nordeste, na cidade de Aracaju, como se uma lembrança puxasse outra. Lembro-me que ia aos bares pela música, dizia que sou do interior de São Paulo e os aracajuenses diziam que eu era um retirante às avessas! A verdade é que o nordeste é lindo e aqueles dias foram dos melhores.

Ainda que haja repertórios que nunca poderei esquecer, meu tempo de ser músico agora também está no passado. Aos poucos fui abandonando a música como se esse abandono fosse também uma parte do envelhecimento. Um envelhecimento sem arte e nem esperança, no qual se perdem as músicas e os próprios músicos que um dia estiveram presentes. E talvez isso tudo seja consequência de medo ou de cansaço ou as duas coisas; envelhecimento de quem pode ter conhecido alguma renúncia e solidão.

Em minha vida, a música cedeu lugar a uma atividade bastante silenciosa: a leitura — e quanto sofrimento eu teria poupado aos meus vizinhos caso essa mudança acontecesse vinte anos antes! Mesmo enquanto músico, leitura sempre foi uma atividade com estranhas peculiaridades. Uma partitura, por exemplo, não é um texto para ser lido apenas, é um texto para ser decorado e executado; sendo que essa última parte fica melhor diante de ouvintes! Um poema, por outro lado, precisa apenas do leitor para realizar-se como obra artística (já começo a refletir como quem trocou Garoto por Bakhtin).

Paulo Moura morreu, Dominguinhos morreu e, com eles, muitas músicas e músicos também ficaram para trás como num sonho de tempo passado; são agora fotos e histórias distantes. Esse texto não é de agora, foi escrito, originalmente, em 2013; ocasião da morte de Dominguinhos. Foi postado num blog que já não existe mais e dedicado a uma namorada que hoje é uma amiga que mora distante. O sentimento posto nisso tudo, ao que parece, já não é presente com a mesma intensidade e, por isso mesmo, aumenta a sensação de perda. Tudo por aqui está em ruínas.

Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

  Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sem...