quarta-feira, 6 de março de 2019

Algumas palavras sobre gramática II


Texto para discussão na aula de Gramática do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus, no dia 10 de março de 2019.

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Gramática: o que é e para que serve


Variação linguística


Já foi motivo de polêmica o livro didático Por uma vida melhor, destinado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), assim como a questão 31 do ENEM 2018, que discutia o pajubá. Como dito na aula 1, a norma gramatical que se leva aos alunos é a da classe dominante, portanto, antes de continuar, vamos ler a crítica que o professor Bagno (2009) faz respeito disso:


◦ a prioridade absoluta, no ensino de língua, deve ser dada às práticas de letramento, isto é, às práticas que possibilitem ao aprendiz uma plena inserção na cultura letrada, de modo que ele seja capaz de ler e de escrever textos dos mais diferentes gêneros que circulam na sociedade. Para ler e escrever, por mais óbvio que pareça, é preciso ler e escrever, e não, como sempre se acreditou, decorar toda uma nomenclatura gramatical numerosa, confusa e frequentemente contraditória, nem fazer análise sintática e morfológica de frases soltas, artificiais, irrelevantes, muitas vezes ridículas, práticas que não contribuem em nada com a verdadeira educação linguística dos cidadãos — com isso, o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado nas primeiras etapas da escolarização em favor de uma real inserção dos aprendizes na cultura letrada em que vivem; ◦ todos os aprendizes devem ter acesso às variedades linguísticas urbanas de prestigio, não porque sejam as únicas formas “certas” de falar e de escrever, mas porque constituem, junto com outros bens sociais, um direito do cidadão, de modo que ele possa se inserir plenamente na vida urbana contemporânea, ter acesso aos bens culturais mais valorizados e dispor dos mesmos recursos de expressão verbal (oral e escrita) dos membros das elites socioculturais e socioeconômicas; o acesso e a incorporação dessas variedades urbanas de prestigio se fazem pelas práticas de letramento mencionadas acima, por meio do convívio intenso, sobretudo no ambiente escolar, com os gêneros textuais mais relevantes para a interação social nos modos de vida contemporâneos; ◦ é imprescindível reconhecer que essas variedades urbanas de prestígio não correspondem integralmente às formas prescritas pelas gramáticas normativas, isto é, não correspondem à norma padrão tradicional: uma grande quantidade de regras prescritas pela norma-padrão tradicional já caíram na obsolescência, já deixaram de ser seguidas até mesmo pelos escritores mais consagrados nos últimos cem anos (se não mais), assim como muitos usos não normativos já se incorporaram plenamente na língua falada das camadas sociais privilegiadas e na língua escrita nos gêneros textuais mais prestigiados — com isso, embora o acesso do estudante à norma-padrão tradicional também faça parte da sua educação linguística (sobretudo pela e para a leitura dos clássicos), este acesso deve ser feito numa perspectiva crítica, para que não se caia na velha prática (anti)pedagógica de condenar todas as inovações linguísticas (resultantes dos inevitáveis processos de mudança das línguas) como se fossem indícios da “ruína” e da “decadência” do idioma; ◦ é passada a hora de se produzir uma nova gramática de referência do português brasileiro contemporâneo que venha a substituir as gramáticas normativas que ainda circulam no mercado, eivadas de inconsistências teóricas e de contradições metodológicas, inspiradas em postulados não científicos e em preconceitos sociais, cristalizados antes do início da era cristã; uma nova gramática que descreva e autorize o que já está pacificamente incorporado à atividade linguística de todos os brasileiros, inclusive dos qualificados de “cultos”; constitui um atentado aos direitos do cidadão continuar a prescrever, como únicas corretas, regras gramaticais que entram em flagrante conflito com a intuição linguística do falante e que não correspondem ao estado atual da língua, nem sequer em seus usos escritos mais formais; ◦ a prática da reflexão linguística é importante para a formação intelectual do cidadão; com isso, ainda existe lugar, em sala de aula, para o estudo explícito da gramática, desde que ele não seja visto como um fim em si mesmo nem como o aprendizado de um conjunto de dogmas, de verdades absolutas e imutáveis: a reflexão sobre a língua deve ser feita por meio da investigação de fatos linguísticos reais, em manifestações faladas e escritas autênticas, e por meio do confronto crítico entre as abordagens tradicionais e as teorias científicas mais recentes — se a prática da pesquisa, da reflexão sobre a constituição histórica dos campos de conhecimento, da contestação e revisão dos postulados científicos ocorre em todas as demais disciplinas do currículo escolar, não existe justificativa alguma para que ela não ocorra também nas aulas de língua: se os professores de ciências não podem mais ensinar que Plutão é um “planeta”, por que os professores de português devem continuar a ensinar que você é mero “pronome de tratamento”, que existe uma “flexão de grau” ou que o verbo preferir não admite construções comparativas do tipo “prefiro mil vezes cinema do que teatro”? ◦ a variação linguística tem que ser objeto e objetivo do ensino de língua: uma educação linguística voltada para a construção da cidadania numa sociedade verdadeiramente democrática não pode desconsiderar que os modos de falar dos diferentes grupos sociais constituem elementos fundamentais da identidade cultural da comunidade e dos indivíduos particulares, e que denegrir ou condenar uma variedade linguística equivale a denegrir e a condenar os seres humanos que a falam, como se fossem incapazes, deficientes ou menos inteligentes — é preciso mostrar, em sala de aula e fora dela, que a língua varia tanto quanto a sociedade varia, que existem muitas maneiras de dizer a mesma coisa e que todas correspondem a usos diferenciados e eficazes dos recursos que o idioma oferece a seus falantes; também é preciso evitar a prática distorcida de apresentar a variação como se ela existisse apenas nos meios rurais ou menos escolarizados, como se também não houvesse variação (e mudança) linguística entre os falantes urbanos, socialmente prestigiados e altamente escolarizados, inclusive nos gêneros escritos mais monitorados (BAGNO, 2009, 38-40).

Formação dos idiomas


As línguas europeias modernas tiveram início por volta do ano 1000 d.C. No processo de mudança, as línguas se transformaram; o inglês, por exemplo, que era uma língua casual (casos gramaticais) e dispunha de três gêneros (masculino, feminino e neutro), foi bastante simplificado.



Curiosidade: a forma thou era a segunda pessoa do singular em inglês e you, a do plural. Para imitar a formalidade de idiomas como o português (Portugal), o francês, o italiano, o espanhol e o alemão, o inglês começou a usar a forma plural you e, com o passar do tempo, a forma singular acabou perdida.




O que são línguas casuais?

Os casos gramaticais dizem respeito a um sistema complexo de concordância. Vamos comparar, por exemplo, a declinação de um adjetivo inglês com um português e um latino.

1.

Masculino
Feminino
Singular
beautiful
beautiful
Plural
beautiful
beautiful

2.

Masculino
Feminino
Singular
bonito
bonita
Plural
bonitos
bonitas

3.

masculino
feminino
neutro

Sg.
Pl.
Sg.
Pl.
Sg.
Pl.
Nom
Pulcher
Pulchri
Pulchra
Pulchrae
Pulchrum
Pulchra
Ac
Pulchrum
Pulchros
Pulchram
Pulchras
Pulchrum
Pulchra
Ab
Pulchro
Pulchris
Pulchra
Pulchris
Pulchro
Pulchris
Dat
Pulchro
Pulchris
Pulchrae
Pulchris
Pulchro
Pulchris
Gen
Pulchri
Pulchrorum
Pulchrae
Pulchrarum
Pulchri
Pulchrorum
Voc
Pulchre
Pulchri
Pulchra
Pulchrae
Pulchrum
Pulchra


Há línguas modernas que utilizam o sistema casual, por exemplo, entre outras, o alemão e o grego.

As línguas mudam

Esses exemplos foram extraídos de Bagno (2006).
1. Rotacização do L nos encontros consonantais

Creusa, Cráudia, grobo, pranta, ingrês, broco, mas igreja, praia, frouxo, escravo 

Latim
Francês
Espanhol
Português
ecclesia
église
iglesia
igreja
plaga (litus)
plage
playa
praia
fluxus
flou
flojo
frouxo
esclave
sclavo
escravo


2. Eliminação das marcas de plural redundantes

Quero te dar as lindas flores amarelas que brotaram no meu jardim.


3. Transformação de LH em I

Português
Francês
Português (variante)
abelha
abeille
abêia
alho
ail
ai
batalha
bataille
bataia
colher (substantivo)
cuiller
cuié
falha
faille
faia
filha
fille
fia
palha
paille
paia
trabalhar
travailler
trabaiá

Transformação desde o latim:
tégula > teg’la > tegla > teyla > telha > têia



4. Simplificação das conjugações verbais

Verbo amar
Francês
Eu amo
Eu amo
J’aime
Tu amas
Você ama
Tu aimes
Ele ama
Ele ama
Il aime
Nós amamos
A gente ama
Nous aimons
Vós amais
Vocês ama
Vous aimez
Eles amam
Eles ama
Ils aiment


5. Transformação de -ND- em -N- 


— Tá veno aquele carro, se quis é, eu vendo! 



Na sentença acima, qual a diferença, além do “d”, entre “veno” e “vendo”, formas do verbo “ver” e do verbo “vender”?

6. Redução do ditongo OU em O

outro
ôtro
trouxe
trôxe
encostou
encostô

7. Redução do ditongo EI em E

beiço
beiço

brasileiro
brasilêro

deixa
dêxa
beijo
bêjo
cheiro
chêro
jeito
jeito

leigo
leigo

primeiro
primêro

queijo
quêjo
peito
peito
queixo
quêxo
seiva
seiva


8. Redução de E e O átonos pretônicos

Notem o “i” e o “u” tônicos:

e-i > i - i (bebida > bibida) | o - i > u - i (formiga > furmiga)

e - u > i - u (segundo > sigundo) | o - u > u - u (coruja > curuja)

E > I

alegria, avenida, bebida, Benedito, feliz, ferido, freguesia, medida, mentira, metido, pedido, pepino, periquito, preguiça, seguido, Severino

cabeludo, pendura, segunda, seguro, veludo

O > U

assobio, chovia, comida, cozinha, corria, domingo, dormir, folia, formiga, gorila, harmonia, notícia, podia, possível, Sofia

coruja, costume, costura, fortuna, gordura


Outro caso, o B e o M

boato, bocado, bodega, bolacha, boneca, borracha, botão, boteco

mocambo, moeda, moela, molambo, moleque, moqueca, morango, mostarda

9. Contração das proparoxítonas em paroxítonas

árvore
> 
arvre

música
> 
musga
córrego
> 
corgo
pássaro
> 
passo
cubículo
> 
cuvico
sábado
> 
sabo
fósforo
> 
fósfro
tábua
> 
tauba
glândula
> 
landra
víbora
> 
briba
glândula
> 
landra
sábado
> 
sabo
música
> 
musga
tábua
> 
tauba
pássaro
> 
passo
víbora
> 
briba


O latim e o português

Latim
Português

Latim
Português
ÁSINUS
ASNO
MIRÁCULUM
MILAGRE
BÁRBARUS
BRAVO
ÓPERA
OBRA
CÁLIDUS
CALDO
HÚMERUS
OMBRO
CUNÍCULUS
COELHO
PARÁBOLA
PALAVRA
CÓMPUTUS
CONTO
PERÍCULUM
PERIGO
DÍGITUS
DEDO
PÁUPER
POBRE
SPÉCULUM
ESPELHO
PÓPULUS
POVO
FÁBULA
FALA
QUADRAGÉSIMA
QUARESMA
FRÍGIDUS
FRIO
RÉGULA
REGRA
GÉNERUM (ac)
GENRO
SÓCERA
SOGRA
ÍNSULA
ILHA
TÉGULA
TELHA
HÓMINEM (ac)
HOMEM
TÉNEBRA
TREVA
LÍTTERA
LETRA
VÉTULU
VELHO
MÁCULA
MALHA
VÍRIDE
VERDE

MÁCULA, também dá origem a mágoa, mancha e mácula.

Conclusão 

Há muitos outros casos a serem analisados. O livro A língua de Eulália, de onde foram tirados esses exemplos apresenta vários outros. O importante é saber que todas as línguas, em qualquer época, apresentam formas variantes e estão em constante processo transformação. As mudanças que acontecem não são obra do acaso, nem da preguiça do falante, muito menos de alguma desinteligência. Tudo tem seu motivo e a gramática é um instrumento para o estudo desses fenômenos. 

Referência

BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim!: em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola editorial, 2009. 

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 15 ed. São Paulo: Contexto, 2006. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Algumas palavras sobre Gramática I

Texto para discussão na aula de Gramática do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus, no dia 23 de fevereiro de 2019.

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Gramática: o que é e para que serve 


É muito fácil acreditar que para escrever bem é preciso saber gramática. Essa ideia, como veremos mais adiante, está bastante errada. Quanto à abordagem, segundo a professora Hauy (2014, p. 67-68), “[d]ependendo do enfoque adotado, dos métodos de estudo e de exposição desses fatos, e, principalmente, do objetivo que se propõe o autor”, a gramática pode ser descritiva, histórica, comparativa ou normativa. 

  • A descritiva estuda o mecanismo pelo qual uma dada língua, num dado momento, funciona; 
  • A histórica estuda a origem e evolução de determinado sistema linguístico; 
  • A comparativa estuda as diferenças e semelhanças entre várias línguas; 
  • A normativa é a descritiva aplicada como regra aos falantes de uma determinada língua. 

A gramática que se leva para a escola é a normativa, é a que diz aos alunos como eles devem escrever ou falar isso e aquilo. Essa gramática será montada a partir de alguns exemplos; assim, uma escrita bonita, que servirá de modelo, será retirada ora de grandes escritores, ora da classe dominante — uma vez que a classe dominante escolhe quais serão os grandes escritores (isso não é uma verdade inteira, mas essa questão será melhor discutida em um outro texto sobre literatura) e, como a sociedade, de modo geral, deseja ser classe dominante, parece justo que essa classe seja imitada no modo de falar, escrever, agir. Há consequências...

Escrever bem 

O texto abaixo, que será analisado em suas informações a respeito do que será construir uma voz, foi extraído de Lispector (2009, p. 175, grifos meus). 

A deseroização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair — só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde descer. É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. Só então minha natureza é aceita, aceita com o seu suplício espantado, onde a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos. E é aceita a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. 

A nossa fala é um artifício, um artificial, uma arte. É preciso trabalho para que se alcance uma comunicação eficiente. Lispector (2009) está falando de despersonalização, deseroização, fracasso, mudez. Segundo a autora, só perde a voz quem construiu uma voz, ou seja, quem criou uma maneira própria de se comunicar. Nem todos fracassam, só os que realmente se empenharam, e nem todos perdem a voz, só os que chegaram a construir uma.



De volta à gramática 


A gramática é uma maneira de pensar a língua. Pode-se estudar a fonética, que são os sons da língua; a morfologia, que são os processos pelos quais as palavras se formam (a ortografia, maneira correta de escrever as palavras, é uma parte da morfologia); a sintaxe, que é, grosso modo, a relação que uma palavra tem com a outra; e a semântica, que é o sentido de uma frase num dado contexto. 



A fonética estuda desde a unidade do som até o texto. A parte escrita, sobre a qual devo me deter neste texto, pela ordem que foi posta, vai da menor (a palavra), para a maior (o texto) — morfologia, sintaxe, semântica. 



Estudar gramática significa dedicar-se a um entendimento a respeito de como a língua funciona — só isso. Não se aprende poesia estudando gramática e não se aprende prosa estudando gramática. Cazuza, uma vez confessou: “Tenho dom de escrever, mas sou nulo em ortografia. O meu cópi é o Ezequiel Neves. Uma vez eu quis rimar ‘não me importam que mil raios me partam’ e o Zeca quase morreu quando ouviu” (1990, p. 27). 


A classe não-dominante 

Como já se pode imaginar, todas as ocorrências linguísticas que não fazem parte da fala e da escrita da classe dominante serão estigmatizadas. Todo falante, sem exceção, tem sotaque. Como o Brasil é um país desigual, o sotaque de algumas regiões são estigmatizados e, o de outras, privilegiados. A fala de pessoas de baixa escolaridade é estigmatizada. Além disso, como aponta o linguista Bagno (2009, p. 19), a língua portuguesa tem alguns mitos: 
  • “os brasileiros falam mal o português, estropiam a língua de Camões, que só os portugueses sabem falar direito, porque são os donos da língua”; 
  • “o português é uma das línguas mais difíceis do mundo”; 
  • “só se pode admitir como certo o uso dos grandes escritores e das pessoas letradas”; 
  • “a língua escrita é a forma certa da língua, porque tem lógica, enquanto a língua falada é caótica e desregrada”; 
  • “o que não está nas gramáticas nem nos dicionários não existe, não é português”; 
  • “as pessoas sem instrução, das classes pobres urbanas ou da zona rural, cometem muitos erros ao falar a língua”; 
  • “os jovens só usam gíria e têm um vocabulário pobre” etc. 
Dentre os mitos apresentados por Bagno (2009), deixarei para uma reflexão a respeito do mito da língua pura, ou seja, aquele de que só os portugueses falam bem o português, um trecho da entrevista que Guimarães Rosa concedeu ao alemão Lorenz: 

LORENZ: Não seria mais fácil e mais correto se agora conversássemos um pouco sobre o aspecto puramente filosófico, sobre as diferenças entre o português europeu e o brasileiro, sobre as conclusões que você tirou disso? Acho que assim seria mais fácil de entender isso que você chama de aspecto metafísico.
GUIMARÃES ROSA: Bem, sim, você tem razão. Temos de partir do fato de que nosso português‐brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E além tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturado. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Böse,[1] e apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas.
LORENZ: Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negroides com os quais se fundiu no Brasil...
GUIMARÃES ROSA: Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isto está a nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada.
(LOREZ, 1991, p. 80-81) 

Ou seja, para Guimarães Rosa, a mistura de línguas que ocorreu e ocorre no Brasil é um fator de enriquecimento.


Referências


BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim!: em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola editorial, 2009. 



CAZUZA. Biografia. In. CHEDIAK, Almir. Cazuza. vol. I. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1990. 



HAUY, Amini Boainain. Gramática da língua portuguesa padrão: com comentário e exemplário – redigida conforme o novo acordo ortográfico. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014. 

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. 

LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.




[1] Além do Bem e do Mal, título de um livro fundamental de Nietzsche. Citado em alemão por Guimarães Rosa

domingo, 6 de janeiro de 2019

Arte no Instagram: Ítalo Lima



Além do Ítalo Lima, pretendo apresentar outros artistas (ver Rodrigo Gallo) cuja produção, de inegável qualidade, pode resultar numa discussão mais aprofundada no futuro. 



Para quê, perguntou ele, para que servem 
Os poetas em tempo de indigência? 


Conheci esses versos por meio do livro A terceira miséria, da poetisa portuguesa Hélia Correia. Depois eu soube que ela os foi buscar em um poeta alemão chamado Friedrich Hölderlin. Fiquei curioso, mas nunca fui confirmar essa fonte. Fato é que estamos em crise e nossa indigência é cultural — professores e artistas agora são responsabilizados pela incompetência administrativa de governantes.

Houve uma outra época de crise em que poetas iam para as ruas entregar seus poemas mimeografados. Como explica Hollanda (2007) 
[n]os bares da moda, nas portas de teatro, nos lançamentos, livrinhos circulam e se esgotam com rapidez. Alguns são mimeografados, outros, em offset, mostram um trabalho gráfico sabido e diferenciado do que se vê no design industrializado das editoras comerciais (HOLLANDA, 2007, p. 9). 

Esses poetas eram chamados marginais por estarem à margem do mercado editorial. Falavam do que queriam e brincavam de fazer poesia. Dentre eles estavam Chacal, Ana Cristina Cesar, Torquato Neto... (ver a coletânea de Hollanda, 26 poetas hoje) Isso aconteceu pelos anos 1970, quando o Brasil queria libertar-se de mordaças, torturas e censuras. Cesar (2013), por meio da personagem Gil, vai atribuir a Shakespeare os versos “trepar é humano, chupar divino” (CÉSAR, 2013, p. 48). O poeta Charles vai escrever poemas como “Diário de bagos” 

quando você se abaixa pra pegar um disco 
com seu vestido curtinho 
delicioso 
aparece a calcinha no rego moreno da bunda 
curto muito 
meu olhar derrete de prazer 
não há como enganar a evidência 
desculpe o volume do lado esquerdo da calça sem cueca 
com tesão não se trinca 
antes todos entendessem e se dedicassem de corpo e 
cama 

obs.: meu pau esquecidamente duro 
cai no amolecimento 
(CHARLES, 2007, p. 232) 


Décadas depois, em 2018, constata-se que a liberdade sexual não foi alcançada. O que parecia ser uma conquista permanente de tudo o que promove a ascensão de grupos minoritários, de um momento para outro foi estrangulado por uma manipulação política travestida de moralismo. 

O sentimento de marginalidade retorna e, como descreve Matoso (1982), nos anos da poesia marginal 
[t]odo mundo fazia de tudo ao mesmo tempo. Ao contrário da última corrente de vanguarda (o poema-processo) e de seus antecedentes concretos fundamentais, a poesia marginal não apresenta qualquer homogeneidade, prática ou teórica. Não há um trabalho coletivo ou grupal orientado e posicionado contra ou a favor de determinados conceitos. Se existem traços comuns à maioria dos autores da década, são eles: a desorganização, a desorientação e a desinformação. E mais: a despreocupação com o próprio conceito de poesia e o descompromisso com qualquer diretriz estética resultaram numa espécie de displicência, de certo modo saudável, como se verá mais adiante, e, como consequência, tal conceito ou tais diretrizes podem ser indiferentemente observados ou não, consciente ou inconscientemente, na obra poética desses autores (MATTOSO, 1982, p. 29). 

Com esse mesmo espírito, surgem poetas que, por meio da Internet, fazem-se ouvir tanto quanto a turma do mimeógrafo dos anos setenta. Alguns, como o professor Azevedo Júnior, preferem o Facebook. Quando o governo, pressionado por grupos religiosos, tentou interferir com o ensino escolar, Azevedo Junior deixou seu protesto com rimas em tom de música rap

A classe média deu o aval 
E voltamos para era medieval 
Quando o conhecimento 
Incomoda os poderosos 
E que me desculpem os religiosos 
Mas ciência...é fundamental! 
(AZEVEDO JUNIOR, 2018)


O poeta Ítalo Lima, por sua vez, vai um pouco além e não só divulga seus poemas pelas páginas do Instagram (@italolimapoesias) como agora também distribui um livro de pouco mais de quarenta páginas no formato PDF.

Com atividade artística intensa que inclui a postagem de poemas, a promoção de saraus e de feiras e participação em palestras, Lima já lançou um livro no formato impresso e digital (Tem sempre uma esperança se prostituindo dentro da gente, editora Viseu, 2018) e agora, com poucos meses de intervalo e apenas no formato digital, O desinteresse começa quando o gozo termina, 2018 (clique no título para o download do PDF). Essa obra apresenta poemas como “Garganta profunda”, sempre de temática LGBT:

Meus pais nunca me ensinaram a fazer garganta profunda, nunca entendi ao certo o real motivo de ter passado tanto tempo sem saber abrigar na minha laringe um membro rígido. Tenho certeza que Deus criou gargantas para isso. O pau do Alberto foi o primeiro que em mim fez lar, foi um aprendizado lento e fundo. No início, ânsias de vômitos são normais, mas passado os exatos três minutos, tudo vira afago. A regra é simples: só cabe paus acima de dezoito centímetros. Nada abaixo disso. E Alberto tinha o tamanho exato que me fazia sorrir até amanhecer. Porque o bom da vida é sentir as coisas profundas do mundo.
(LIMA, 2018, p. 10)


Esses poemas de temática sexual, provocativos, ao revelarem o íntimo de um casal, fazem um protesto, inicialmente, à sociedade machista e homofóbica e, finalmente, a uma inusitada autoridade repressora que, uma vez no poder, quer transformar a prática sexual em questão de Estado mediante a imposição de um modelo familiar que, em qualquer análise, mostra ser apenas uma ficção de mal gosto. O poema “Eu me masturbo pensando em você” junta devoção e sexo:

Eu me masturbo pensando em você, 
e cubro todos os santos do altar do meu quarto, apago as velas, faço unguento de água benta e purifico as minhas mãos, rezo um terço de penitência e ajoelho nu frente ao espelho dos meus sonhos. aliso meu membro frouxo levemente com a mão direita, fecho os olhos instantaneamente e penso em toda desordem do teu corpo: imagino teus dedos brancos invadindo todos os orifícios do meu desencanto, você ri sem medo e eu apanho com a mão feroz teus cabelos com aleatórios fios brancos, eu sei, toquei em solo sagrado, teu cabelo único é vício proibido, apalpei então tua nuca firme no mesmo instante em que você sussurrou umidamente no meu ouvido surdo “eu não te amo mais”. Despertei sem arquitetura e vi um corpo em agonia frente ao espelho, não veio gozo flácido, nem umidez repleta de culpa, havia apenas suores imaturos e santos incomuns de costas pro vazio do meu abandono, minha punição maior será a ausência do teu sobrenome. com quantos ais se reza uma esperança? 
(LIMA, 2018, p. 17) 



Lima trabalha com ilustradores. O desinteresse começa quando o gozo termina conta com capa ilustrada por André Marques (@ndrmrqs). No Instagram, trabalha com Tai Melo (@nudegrafia_mirror), Álvaro Castro (@alvarocastrodesign), Lorenzo Dustkid Guagni (@thedustkid), Willian Vailant (@meupincelmolhado), dentre outros. Todos de temática sexual no limite do que é permitido pelo Instagram. Tai Melo explica que uma conta sua foi desativada devido ao conteúdo — ela, bem como os demais, continua provocativa, portanto, sugiro que a visita a esses sites não demore a ser feita. 


Referências bibliográficas

AZEVEDO JÚNIOR, Antônio. A classe média deu o aval. [São José do Rio Preto], [sine nomine], 5 de agosto de 2018. 

CESAR, Ana Cristina. Poética. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

CHARLES. Diário de bagos. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. 6a ed. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. 

CORREIA, Hélia. A terceira miséria. Lisboa: Relógio d’água, 2012. 

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. 6a ed. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. 

LIMA, Ítalo. O desinteresse começa quando o gozo termina. [Teresina], [sine nomine], 2018.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Série “Leiam direito a Bíblia” ou “Ateu ensina cristão” 2


Na “Parábola do homem louco”, aforismo 125 do livro A gaia ciência, por meio de um protagonista louco o filósofo Nietzsche faz a famosa afirmação de que “Deus está morto” (2001, p. 148). Apesar de sua aversão à vida religiosa, no aforismo 475, intitulado “O homem europeu e a destruição das nações”, ao fazer um balanço sobre o povo judeu (importante lembrar que Nietzsche era alemão e que esse aforismo está no livro Humano, demasiado humano, publicado originalmente em 1878; portanto, antes de Hitler e das guerras mundiais, mas sob um forte sentimento nacionalista alemão), o filósofo afirma que “devemos aos judeus o mais nobre dos homens” (2000, p. 258) — e coloca Cristo entre parênteses para que não deixar dúvidas aos leitores desavisados. Essa nobreza diz respeito tanto ao espírito quanto ao sangue. 

Jesus, o Cristo; Jesus, o filho de Davi; Jesus, o rei de Israel, são referências à nacionalidade, à origem, enfim... Ser filho de Davi significa linhagem nobre — Jesus era pobre e humilde, nasceu numa manjedoura, mas, como se diz, tinha sangue azul, pois era descendente do rei Davi. Por causa dessa descendência, poderia ser o rei de Israel e isso o destacava entre os demais líderes religiosos de sua época. Contudo, diante de Pilatos, no julgamento que o condenaria à cruz, Jesus afirma “[...] O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse entregue aos judeus; mas agora, o meu reino não é daqui” (João 8.36).

O reino de Jesus não é deste mundo, mesmo assim ele pertencia a uma das tribos de Israel e era cobrado como líder somente de Israel. O episódio que universaliza Jesus como o Deus de todos o que o procuram é relatado no evangelhos de Mateus (15.21-28) e de Marcos (7.24-30). Nesse episódio, uma mulher que o evangelho de Mateus apresenta como cananeia e o de Marcos como uma grega de origem sírio-fenícia, pedia que Jesus libertasse sua filha, que estava possuída por espíritos demoníacos. Jesus não podia atendê-la, porque ele era exclusivo do povo de Israel e, por causa disso, os apóstolos ficaram incomodados e pediram que Jesus a mandasse embora: “Despede-a, pois vem clamando atrás de nós” (Mateus 15.23). Jesus explica à mulher: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 15.24). Como a mulher insistisse, Jesus passou-lhe uma descompostura: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (Mateus 15.26). Apesar de ofendida, a mulher insistiu mais uma vez: “Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mateus 15.27). Comovido, Jesus concedeu o milagre a essa mulher estrangeira e, por causa de transgressões como essa, o povo judeu o entregou para que fosse crucificado e nunca o aceitou como Deus. 

Lembrando: os judeus não seguem o Novo Testamento, sim o Pentateuco ou Torá, que são os cinco primeiros livros da Bíblia, atribuídos a Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). 

Termino repetindo o que já disse no texto anterior: Jesus não tolerava sofrimento humano causado por leis imbecis.

Referência 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia Ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Série “Leiam direito a Bíblia” ou “Ateu ensina cristão” 1



Ao longo de toda minha vida, ouvi bobagens ditas por evangélicos. Como agora os evangélicos estão poder, entendo ser necessário alertar ao menos os bem-intencionados — aqueles que querem um país melhor e que só votaram no Bolsonaro porque acreditaram e ainda acreditam em mudança —, de que foram vários os períodos históricos em que a Bíblia foi usada para manipulação política.

Pretendo postar algumas análises sérias de passagens bíblicas do Novo Testamento. “Séria”, no caso, significa uma análise apoiada no texto da Bíblia, não nos interesses desse ou daquele grupo político. Contudo, essa não é uma análise neutra — citando Bagno (2012, p. 14) “não existe produto humano que não se configure, consciente ou inconscientemente, como uma tomada de posição política inspirada por uma ou mais ideologias; o mito da ciência ‘neutra’ não tem mais lugar na era em que vivemos”. 

Muitas das atrocidades combatidas por Jesus e relatadas pela Bíblia não são exclusivas do Mundo Antigo, pois continuam existindo hoje. A lei que autoriza o apedrejamento de mulheres flagradas em adultério, por exemplo, ainda existe em algumas partes do mundo (histórias como essa podem ser encontradas nos relatos de Malala, a jovem paquistanesa que recebeu o prêmio Nobel da Paz por defender a alfabetização de mulheres. Ela narra sua atividade política no livro “Eu sou Malala”). 

A Bíblia relata a interferência de Jesus na condenação de uma mulher em João 8.1-11. Nessa passagem, “escribas e fariseus” procuravam uma justificativa para condenar Jesus; portanto, se ele impedisse o apedrejamento, condenaria a si próprio como um transgressor da lei de Moisés (Deuteronômio 22.22 — “Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim eliminarás o mal de Israel”). A estratégia de Jesus foi fazer com que os acusadores, que também seriam os carrascos, agissem de acordo com a própria consciência (João 8.7 — “[...] Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”). 

Esse episódio é comumente citado para exemplificar a compaixão de Jesus, mas é preciso entender também a transgressão: Jesus não admite leis sem sentido ou punições desproporcionais. Diante de situações como essa (os evangelhos relatam algumas, que discutirei em outras análises), Jesus transgride, muda a lei e deixa a seus seguidores um exemplo de que é preciso agir com sensibilidade, especialmente quando estamos em posição privilegiada de autoridade.

Por causa de transgressões como essa, Jesus foi preso, julgado e condenado à morte por cruz. Como observa Aquati (2008, p. 72, em nota) esse era “o mais cruel e ultrajante meio de aplicação da pena de morte entre os romanos e estava normalmente reservada aos escravos. As faltas que implicavam tal condenação eram em geral a pirataria, o assassinato, o banditismo e a incitação à revolta”.


Referência 

AQUATI, Cláudio. Tradução e posfácio. In: PETRÔNIO. Satíricon. ______. São Paulo: Cosac Naify, 2008. 

BAGNO, Marcos. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Triste

Escrito no ano 2000 por motivos muito diferentes dos que motivam a postagem dele hoje. É interessante e também agradável poder recorrer a um texto meu, e não de algum autor que eu li, para traduzir ou expressar um sentimento meu. 




tudo dentro é triste
nem mais é preciso a sombra da morte
       para sentir essas dores


que chegam assim
nas asas da manhã


bastaria culpar a solidão
— velha companheira
mas ela é inocente
bem sei


...hoje a tristeza existe por si só

Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

  Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sem...