quarta-feira, 6 de março de 2019

Algumas palavras sobre gramática II


Texto para discussão na aula de Gramática do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus, no dia 10 de março de 2019.

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Gramática: o que é e para que serve


Variação linguística


Já foi motivo de polêmica o livro didático Por uma vida melhor, destinado à Educação de Jovens e Adultos (EJA), assim como a questão 31 do ENEM 2018, que discutia o pajubá. Como dito na aula 1, a norma gramatical que se leva aos alunos é a da classe dominante, portanto, antes de continuar, vamos ler a crítica que o professor Bagno (2009) faz respeito disso:


◦ a prioridade absoluta, no ensino de língua, deve ser dada às práticas de letramento, isto é, às práticas que possibilitem ao aprendiz uma plena inserção na cultura letrada, de modo que ele seja capaz de ler e de escrever textos dos mais diferentes gêneros que circulam na sociedade. Para ler e escrever, por mais óbvio que pareça, é preciso ler e escrever, e não, como sempre se acreditou, decorar toda uma nomenclatura gramatical numerosa, confusa e frequentemente contraditória, nem fazer análise sintática e morfológica de frases soltas, artificiais, irrelevantes, muitas vezes ridículas, práticas que não contribuem em nada com a verdadeira educação linguística dos cidadãos — com isso, o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado nas primeiras etapas da escolarização em favor de uma real inserção dos aprendizes na cultura letrada em que vivem; ◦ todos os aprendizes devem ter acesso às variedades linguísticas urbanas de prestigio, não porque sejam as únicas formas “certas” de falar e de escrever, mas porque constituem, junto com outros bens sociais, um direito do cidadão, de modo que ele possa se inserir plenamente na vida urbana contemporânea, ter acesso aos bens culturais mais valorizados e dispor dos mesmos recursos de expressão verbal (oral e escrita) dos membros das elites socioculturais e socioeconômicas; o acesso e a incorporação dessas variedades urbanas de prestigio se fazem pelas práticas de letramento mencionadas acima, por meio do convívio intenso, sobretudo no ambiente escolar, com os gêneros textuais mais relevantes para a interação social nos modos de vida contemporâneos; ◦ é imprescindível reconhecer que essas variedades urbanas de prestígio não correspondem integralmente às formas prescritas pelas gramáticas normativas, isto é, não correspondem à norma padrão tradicional: uma grande quantidade de regras prescritas pela norma-padrão tradicional já caíram na obsolescência, já deixaram de ser seguidas até mesmo pelos escritores mais consagrados nos últimos cem anos (se não mais), assim como muitos usos não normativos já se incorporaram plenamente na língua falada das camadas sociais privilegiadas e na língua escrita nos gêneros textuais mais prestigiados — com isso, embora o acesso do estudante à norma-padrão tradicional também faça parte da sua educação linguística (sobretudo pela e para a leitura dos clássicos), este acesso deve ser feito numa perspectiva crítica, para que não se caia na velha prática (anti)pedagógica de condenar todas as inovações linguísticas (resultantes dos inevitáveis processos de mudança das línguas) como se fossem indícios da “ruína” e da “decadência” do idioma; ◦ é passada a hora de se produzir uma nova gramática de referência do português brasileiro contemporâneo que venha a substituir as gramáticas normativas que ainda circulam no mercado, eivadas de inconsistências teóricas e de contradições metodológicas, inspiradas em postulados não científicos e em preconceitos sociais, cristalizados antes do início da era cristã; uma nova gramática que descreva e autorize o que já está pacificamente incorporado à atividade linguística de todos os brasileiros, inclusive dos qualificados de “cultos”; constitui um atentado aos direitos do cidadão continuar a prescrever, como únicas corretas, regras gramaticais que entram em flagrante conflito com a intuição linguística do falante e que não correspondem ao estado atual da língua, nem sequer em seus usos escritos mais formais; ◦ a prática da reflexão linguística é importante para a formação intelectual do cidadão; com isso, ainda existe lugar, em sala de aula, para o estudo explícito da gramática, desde que ele não seja visto como um fim em si mesmo nem como o aprendizado de um conjunto de dogmas, de verdades absolutas e imutáveis: a reflexão sobre a língua deve ser feita por meio da investigação de fatos linguísticos reais, em manifestações faladas e escritas autênticas, e por meio do confronto crítico entre as abordagens tradicionais e as teorias científicas mais recentes — se a prática da pesquisa, da reflexão sobre a constituição histórica dos campos de conhecimento, da contestação e revisão dos postulados científicos ocorre em todas as demais disciplinas do currículo escolar, não existe justificativa alguma para que ela não ocorra também nas aulas de língua: se os professores de ciências não podem mais ensinar que Plutão é um “planeta”, por que os professores de português devem continuar a ensinar que você é mero “pronome de tratamento”, que existe uma “flexão de grau” ou que o verbo preferir não admite construções comparativas do tipo “prefiro mil vezes cinema do que teatro”? ◦ a variação linguística tem que ser objeto e objetivo do ensino de língua: uma educação linguística voltada para a construção da cidadania numa sociedade verdadeiramente democrática não pode desconsiderar que os modos de falar dos diferentes grupos sociais constituem elementos fundamentais da identidade cultural da comunidade e dos indivíduos particulares, e que denegrir ou condenar uma variedade linguística equivale a denegrir e a condenar os seres humanos que a falam, como se fossem incapazes, deficientes ou menos inteligentes — é preciso mostrar, em sala de aula e fora dela, que a língua varia tanto quanto a sociedade varia, que existem muitas maneiras de dizer a mesma coisa e que todas correspondem a usos diferenciados e eficazes dos recursos que o idioma oferece a seus falantes; também é preciso evitar a prática distorcida de apresentar a variação como se ela existisse apenas nos meios rurais ou menos escolarizados, como se também não houvesse variação (e mudança) linguística entre os falantes urbanos, socialmente prestigiados e altamente escolarizados, inclusive nos gêneros escritos mais monitorados (BAGNO, 2009, 38-40).

Formação dos idiomas


As línguas europeias modernas tiveram início por volta do ano 1000 d.C. No processo de mudança, as línguas se transformaram; o inglês, por exemplo, que era uma língua casual (casos gramaticais) e dispunha de três gêneros (masculino, feminino e neutro), foi bastante simplificado.



Curiosidade: a forma thou era a segunda pessoa do singular em inglês e you, a do plural. Para imitar a formalidade de idiomas como o português (Portugal), o francês, o italiano, o espanhol e o alemão, o inglês começou a usar a forma plural you e, com o passar do tempo, a forma singular acabou perdida.




O que são línguas casuais?

Os casos gramaticais dizem respeito a um sistema complexo de concordância. Vamos comparar, por exemplo, a declinação de um adjetivo inglês com um português e um latino.

1.

Masculino
Feminino
Singular
beautiful
beautiful
Plural
beautiful
beautiful

2.

Masculino
Feminino
Singular
bonito
bonita
Plural
bonitos
bonitas

3.

masculino
feminino
neutro

Sg.
Pl.
Sg.
Pl.
Sg.
Pl.
Nom
Pulcher
Pulchri
Pulchra
Pulchrae
Pulchrum
Pulchra
Ac
Pulchrum
Pulchros
Pulchram
Pulchras
Pulchrum
Pulchra
Ab
Pulchro
Pulchris
Pulchra
Pulchris
Pulchro
Pulchris
Dat
Pulchro
Pulchris
Pulchrae
Pulchris
Pulchro
Pulchris
Gen
Pulchri
Pulchrorum
Pulchrae
Pulchrarum
Pulchri
Pulchrorum
Voc
Pulchre
Pulchri
Pulchra
Pulchrae
Pulchrum
Pulchra


Há línguas modernas que utilizam o sistema casual, por exemplo, entre outras, o alemão e o grego.

As línguas mudam

Esses exemplos foram extraídos de Bagno (2006).
1. Rotacização do L nos encontros consonantais

Creusa, Cráudia, grobo, pranta, ingrês, broco, mas igreja, praia, frouxo, escravo 

Latim
Francês
Espanhol
Português
ecclesia
église
iglesia
igreja
plaga (litus)
plage
playa
praia
fluxus
flou
flojo
frouxo
esclave
sclavo
escravo


2. Eliminação das marcas de plural redundantes

Quero te dar as lindas flores amarelas que brotaram no meu jardim.


3. Transformação de LH em I

Português
Francês
Português (variante)
abelha
abeille
abêia
alho
ail
ai
batalha
bataille
bataia
colher (substantivo)
cuiller
cuié
falha
faille
faia
filha
fille
fia
palha
paille
paia
trabalhar
travailler
trabaiá

Transformação desde o latim:
tégula > teg’la > tegla > teyla > telha > têia



4. Simplificação das conjugações verbais

Verbo amar
Francês
Eu amo
Eu amo
J’aime
Tu amas
Você ama
Tu aimes
Ele ama
Ele ama
Il aime
Nós amamos
A gente ama
Nous aimons
Vós amais
Vocês ama
Vous aimez
Eles amam
Eles ama
Ils aiment


5. Transformação de -ND- em -N- 


— Tá veno aquele carro, se quis é, eu vendo! 



Na sentença acima, qual a diferença, além do “d”, entre “veno” e “vendo”, formas do verbo “ver” e do verbo “vender”?

6. Redução do ditongo OU em O

outro
ôtro
trouxe
trôxe
encostou
encostô

7. Redução do ditongo EI em E

beiço
beiço

brasileiro
brasilêro

deixa
dêxa
beijo
bêjo
cheiro
chêro
jeito
jeito

leigo
leigo

primeiro
primêro

queijo
quêjo
peito
peito
queixo
quêxo
seiva
seiva


8. Redução de E e O átonos pretônicos

Notem o “i” e o “u” tônicos:

e-i > i - i (bebida > bibida) | o - i > u - i (formiga > furmiga)

e - u > i - u (segundo > sigundo) | o - u > u - u (coruja > curuja)

E > I

alegria, avenida, bebida, Benedito, feliz, ferido, freguesia, medida, mentira, metido, pedido, pepino, periquito, preguiça, seguido, Severino

cabeludo, pendura, segunda, seguro, veludo

O > U

assobio, chovia, comida, cozinha, corria, domingo, dormir, folia, formiga, gorila, harmonia, notícia, podia, possível, Sofia

coruja, costume, costura, fortuna, gordura


Outro caso, o B e o M

boato, bocado, bodega, bolacha, boneca, borracha, botão, boteco

mocambo, moeda, moela, molambo, moleque, moqueca, morango, mostarda

9. Contração das proparoxítonas em paroxítonas

árvore
> 
arvre

música
> 
musga
córrego
> 
corgo
pássaro
> 
passo
cubículo
> 
cuvico
sábado
> 
sabo
fósforo
> 
fósfro
tábua
> 
tauba
glândula
> 
landra
víbora
> 
briba
glândula
> 
landra
sábado
> 
sabo
música
> 
musga
tábua
> 
tauba
pássaro
> 
passo
víbora
> 
briba


O latim e o português

Latim
Português

Latim
Português
ÁSINUS
ASNO
MIRÁCULUM
MILAGRE
BÁRBARUS
BRAVO
ÓPERA
OBRA
CÁLIDUS
CALDO
HÚMERUS
OMBRO
CUNÍCULUS
COELHO
PARÁBOLA
PALAVRA
CÓMPUTUS
CONTO
PERÍCULUM
PERIGO
DÍGITUS
DEDO
PÁUPER
POBRE
SPÉCULUM
ESPELHO
PÓPULUS
POVO
FÁBULA
FALA
QUADRAGÉSIMA
QUARESMA
FRÍGIDUS
FRIO
RÉGULA
REGRA
GÉNERUM (ac)
GENRO
SÓCERA
SOGRA
ÍNSULA
ILHA
TÉGULA
TELHA
HÓMINEM (ac)
HOMEM
TÉNEBRA
TREVA
LÍTTERA
LETRA
VÉTULU
VELHO
MÁCULA
MALHA
VÍRIDE
VERDE

MÁCULA, também dá origem a mágoa, mancha e mácula.

Conclusão 

Há muitos outros casos a serem analisados. O livro A língua de Eulália, de onde foram tirados esses exemplos apresenta vários outros. O importante é saber que todas as línguas, em qualquer época, apresentam formas variantes e estão em constante processo transformação. As mudanças que acontecem não são obra do acaso, nem da preguiça do falante, muito menos de alguma desinteligência. Tudo tem seu motivo e a gramática é um instrumento para o estudo desses fenômenos. 

Referência

BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim!: em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola editorial, 2009. 

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 15 ed. São Paulo: Contexto, 2006. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Algumas palavras sobre Gramática I

Texto para discussão na aula de Gramática do Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus, no dia 23 de fevereiro de 2019.

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Gramática: o que é e para que serve 


É muito fácil acreditar que para escrever bem é preciso saber gramática. Essa ideia, como veremos mais adiante, está bastante errada. Quanto à abordagem, segundo a professora Hauy (2014, p. 67-68), “[d]ependendo do enfoque adotado, dos métodos de estudo e de exposição desses fatos, e, principalmente, do objetivo que se propõe o autor”, a gramática pode ser descritiva, histórica, comparativa ou normativa. 

  • A descritiva estuda o mecanismo pelo qual uma dada língua, num dado momento, funciona; 
  • A histórica estuda a origem e evolução de determinado sistema linguístico; 
  • A comparativa estuda as diferenças e semelhanças entre várias línguas; 
  • A normativa é a descritiva aplicada como regra aos falantes de uma determinada língua. 

A gramática que se leva para a escola é a normativa, é a que diz aos alunos como eles devem escrever ou falar isso e aquilo. Essa gramática será montada a partir de alguns exemplos; assim, uma escrita bonita, que servirá de modelo, será retirada ora de grandes escritores, ora da classe dominante — uma vez que a classe dominante escolhe quais serão os grandes escritores (isso não é uma verdade inteira, mas essa questão será melhor discutida em um outro texto sobre literatura) e, como a sociedade, de modo geral, deseja ser classe dominante, parece justo que essa classe seja imitada no modo de falar, escrever, agir. Há consequências...

Escrever bem 

O texto abaixo, que será analisado em suas informações a respeito do que será construir uma voz, foi extraído de Lispector (2009, p. 175, grifos meus). 

A deseroização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair — só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz. Minhas civilizações eram necessárias para que eu subisse a ponto de ter de onde descer. É exatamente através do malogro da voz que se vai pela primeira vez ouvir a própria mudez e a dos outros e a das coisas, e aceitá-la como a possível linguagem. Só então minha natureza é aceita, aceita com o seu suplício espantado, onde a dor não é alguma coisa que nos acontece, mas o que somos. E é aceita a nossa condição como a única possível, já que ela é o que existe, e não outra. 

A nossa fala é um artifício, um artificial, uma arte. É preciso trabalho para que se alcance uma comunicação eficiente. Lispector (2009) está falando de despersonalização, deseroização, fracasso, mudez. Segundo a autora, só perde a voz quem construiu uma voz, ou seja, quem criou uma maneira própria de se comunicar. Nem todos fracassam, só os que realmente se empenharam, e nem todos perdem a voz, só os que chegaram a construir uma.



De volta à gramática 


A gramática é uma maneira de pensar a língua. Pode-se estudar a fonética, que são os sons da língua; a morfologia, que são os processos pelos quais as palavras se formam (a ortografia, maneira correta de escrever as palavras, é uma parte da morfologia); a sintaxe, que é, grosso modo, a relação que uma palavra tem com a outra; e a semântica, que é o sentido de uma frase num dado contexto. 



A fonética estuda desde a unidade do som até o texto. A parte escrita, sobre a qual devo me deter neste texto, pela ordem que foi posta, vai da menor (a palavra), para a maior (o texto) — morfologia, sintaxe, semântica. 



Estudar gramática significa dedicar-se a um entendimento a respeito de como a língua funciona — só isso. Não se aprende poesia estudando gramática e não se aprende prosa estudando gramática. Cazuza, uma vez confessou: “Tenho dom de escrever, mas sou nulo em ortografia. O meu cópi é o Ezequiel Neves. Uma vez eu quis rimar ‘não me importam que mil raios me partam’ e o Zeca quase morreu quando ouviu” (1990, p. 27). 


A classe não-dominante 

Como já se pode imaginar, todas as ocorrências linguísticas que não fazem parte da fala e da escrita da classe dominante serão estigmatizadas. Todo falante, sem exceção, tem sotaque. Como o Brasil é um país desigual, o sotaque de algumas regiões são estigmatizados e, o de outras, privilegiados. A fala de pessoas de baixa escolaridade é estigmatizada. Além disso, como aponta o linguista Bagno (2009, p. 19), a língua portuguesa tem alguns mitos: 
  • “os brasileiros falam mal o português, estropiam a língua de Camões, que só os portugueses sabem falar direito, porque são os donos da língua”; 
  • “o português é uma das línguas mais difíceis do mundo”; 
  • “só se pode admitir como certo o uso dos grandes escritores e das pessoas letradas”; 
  • “a língua escrita é a forma certa da língua, porque tem lógica, enquanto a língua falada é caótica e desregrada”; 
  • “o que não está nas gramáticas nem nos dicionários não existe, não é português”; 
  • “as pessoas sem instrução, das classes pobres urbanas ou da zona rural, cometem muitos erros ao falar a língua”; 
  • “os jovens só usam gíria e têm um vocabulário pobre” etc. 
Dentre os mitos apresentados por Bagno (2009), deixarei para uma reflexão a respeito do mito da língua pura, ou seja, aquele de que só os portugueses falam bem o português, um trecho da entrevista que Guimarães Rosa concedeu ao alemão Lorenz: 

LORENZ: Não seria mais fácil e mais correto se agora conversássemos um pouco sobre o aspecto puramente filosófico, sobre as diferenças entre o português europeu e o brasileiro, sobre as conclusões que você tirou disso? Acho que assim seria mais fácil de entender isso que você chama de aspecto metafísico.
GUIMARÃES ROSA: Bem, sim, você tem razão. Temos de partir do fato de que nosso português‐brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E além tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturado. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Böse,[1] e apesar disso, já é incalculável o enriquecimento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas.
LORENZ: Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negroides com os quais se fundiu no Brasil...
GUIMARÃES ROSA: Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicionários europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isto está a nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada.
(LOREZ, 1991, p. 80-81) 

Ou seja, para Guimarães Rosa, a mistura de línguas que ocorreu e ocorre no Brasil é um fator de enriquecimento.


Referências


BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim!: em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola editorial, 2009. 



CAZUZA. Biografia. In. CHEDIAK, Almir. Cazuza. vol. I. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1990. 



HAUY, Amini Boainain. Gramática da língua portuguesa padrão: com comentário e exemplário – redigida conforme o novo acordo ortográfico. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014. 

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. 

LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.




[1] Além do Bem e do Mal, título de um livro fundamental de Nietzsche. Citado em alemão por Guimarães Rosa

Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

  Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sem...