sexta-feira, 8 de abril de 2022

Buenos Aires: primeiro planejamento

 























Ainda não fiz uma viagem internacional. Sempre tive em perspectiva que, por aprender línguas, em algum momento eu faria uma viagem para fora do Brasil, até mesmo com fins acadêmicos. Quem sabe um intercâmbio… vários colegas fizeram durante a graduação.
 
O intercâmbio não aconteceu e a viagem ficou por minha conta mesmo. Durante a pandemia, os preços de viagens despencaram e foi possível comprarmos, eu e a Marta, minha namorada, um pacote de cinco dias em Buenos Aires. Isso foi em 2020 e a viagem aconteceria cerca de dez meses depois, em abril de 2021, o caso é que ninguém imaginava que a pandemia fosse durar o que durou, ou ainda dura.
 
Curiosamente, o espanhol é uma língua que ainda não consegui aprender e hoje o aprendizado de uma língua nova é algo que caminha muito lentamente. É que me parece ser mais necessário desenvolver ou aprimorar um pensamento crítico do que aprender um outro idioma. Sem contar que ainda devo avançar no aprendizado daqueles idiomas que aprendi pouco além do nível intermediário. Ainda assim, fiz alguns estudos de espanhol e li alguns livros. Até ajudei a traduzir um capítulo de uma autora mexicana, tradução que deve ser publicada ainda esse ano!
 
De acordo com o planejado, eu teria algum dinheiro para a viagem, que deveria acontecer em abril, mas a viagem foi transferida para outubro e daí eu já não tinha mais reservas, apenas o cartão de crédito. Inflação, um verme na presidência desgovernando o país e o dinheiro se foi. Durante a crise administrativa que ainda dura, ao menos um amigo de militância morreu num momento em que já existia vacina, e nem velório teve. A viagem foi transferida de novo, dessa vez para abril de 2022.
 
Ao que parece, dentro de alguns dias estaremos em Buenos Aires e pretendo contar a experiência aqui. Esse blog ficou parado por alguns anos enquanto eu tentava um projeto de crítica literária numa página WIX que na verdade nunca ofereceu vantagem alguma em relação à essa. Para quem quiser acompanhar, além dos textos deste blog, publicarei fotos em meu Instagram.
 
Na verdade, a viagem quase foi cancelada, perdida mesmo, porque, como estava dizendo mais acima, praticamente não tenho mais recursos. Foi por insistência da Marta que acabamos não perdendo essa viagem que já está paga. Isso posto, essa será uma viagem para “vermos” Buenos Aires. O plano é andarmos por alguns bairros, por sugestão da Marta vamos fazer um passeio de ônibus turístico, do tipo hop-on hop-off. Por sugestão minha, vamos passar uma tarde na Universidad de Buenos Aires.
 
Eu e ela lemos um mesmo guia de viagens e anotamos alguns lugares, depois confrontamos as listas e marcamos os lugares que coincidiram. Assim, já que vamos ficar no Microcentro, parece-nos certo que visitaremos a Casa Rosada e a Plaza Lavalle, nem que seja para vermos a fachada. O Cementerio de la Recoleta também foi um dos pontos que ambos marcamos, mas agora não tenho certeza, pois parece haver lugares demais em nossa lista. É possível que visitemos o Parque 3 de Febrero, o Museo Evita e o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, se tivermos de escolher apenas um dentre os três, eu insistirei no último.

Também queremos ver a Mafalda, que fica em frente à casa onde morou Quino, e, claro, uma livraria, a Libros del Pasaje, que fica no shopping Recoleta Village. Estamos terminando os últimos preparativos.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Mensagem triste de Natal aos professores



No decorrer deste ano, o professor Daniel publicava um texto bastante emotivo a respeito de seu desligamento do quadro de professores da UNIRP (São José do Rio Preto, SP). Com o título “Fui demitido, após 20 anos de dedicação à mesma instituição”, dizia estar sendo desligado “porque a educação está em uma profunda crise econômica, financeira, política, espiritual e moral que não é apenas dela”. Diante desse desabafo, o que adivinho ter sido expresso pelos colegas, pois também já vivi situações similares, é o pensamento silencioso “antes ele do que eu”. Essa apatia deve-se à ideia de que logo ele estaria novamente empregado e o caso, esquecido.

Não foi o que aconteceu. Não é o que está acontecendo. Venho acompanhando as notícias por meio de colegas professores e de colegas alunos.

Recentemente, o corpo discente do Centro Acadêmico Rolando Tenuto, do curso de Medicina da Universidade São Francisco (Bragança Paulista, SP) publicou uma nota de repúdio pela demissão do professor Douglas Collina Martins. Nesta semana, depois de um período de intervenção devido à dívidas, a UNORP (São José do Rio Preto, SP) apresentou uma lista grande de professores demitidos e prometeu ampliá-la antes do final deste ano. Logo em seguida, a UNIP (São José do Rio Preto, SP) também anunciou demissões. Vale informar que os professores demitidos não têm os direitos trabalhistas respeitados (tenho menos informações a respeito da USF, mas sei que a UNORP, a UNIRP e a UNIP, simplesmente, nunca recolheram o FGTS e, com cinismo, recomendam a seus demitidos que procurem um advogado).

Dessa vez, o pensamento “Antes ele do que eu” não deu muito certo, porque, ao menos na UNORP, os professores que ficaram não receberam o pagamento de dezembro e têm medo de que, ao cobrar a direção da universidade, possam aborrecer alguém e acabar incluídos na próxima lista de demitidos.

Vale uma reflexão a respeito desse quadro.

A população, de um modo geral, não sabe o que é ou para que serve uma universidade. Por causa isso, paira no ar uma ideia de que temos todos de ser práticos e valorizar os cursos práticos. Por esse motivo, os cursos técnicos estão, momentaneamente, em alta. Digo momentaneamente porque a crise das universidades, que forma os professores dos cursos técnicos, logo os atingirá também. Igualmente, as universidades públicas, responsáveis pela maior parte dos trabalhos de pesquisas, já são atingidas. Isso porque as pesquisas foram, inesperadamente, tidas como desnecessárias, uma vez que a população, de um modo geral, não liga desenvolvimento com pesquisa com universidade.

Se fosse possível que um plano de um país apenas com profissionais técnicos desse certo, e que esses profissionais não precisassem contar com direitos trabalhistas… (esse plano é tão mirabolante que nem dá para levar adiante tal raciocínio).

Gostaria de dizer aos professores que estão perdendo o emprego, que assisto com grande indignação e faço votos de que, em breve, no novo ano que se inicia, tenhamos trabalhadores mais indignados e muito mais dispostos a mudar esse quadro.


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Esse novo partido…


De repente, pelo direito de portar armas estamos oferecendo os direitos trabalhistas, o direito à saúde gratuita, o direito à educação gratuita, entre outros. Dizem que essa troca acontece para favorecer uma suposta desoneração do Estado; mas, até agora, nenhum de nossos imposto foi cancelado e abrir uma empresa no governo Bolsonaro continua tão complicado quanto era no governo Lula.

Curiosamente, o partido Aliança pelo Brasil, ao contrário do que o nome diz, não quer alianças; foi criado para possibilitar o exercício da autoridade de um só homem, para acabar com as tentativas de diálogo e para promover a indústria armamentista. Já foi percebido que Bolsonaro não preside o Brasil; ele, na verdade, usufrui do cargo de presidente trabalhando em benefício próprio e, para ele, nada mais importa além da manutenção desse poder.

Conforme foi divulgado, a escultura de cartuchos é uma obra do artista Rodrigo Camacho, encomendada pelo deputado Delegado Péricles (PSL). Essa escultura poderia ser apenas mais um monumento ao mal gosto — como aquelas réplicas da Estátua da Liberdade em frente às lojas Havan. Contudo, essa não é apenas uma questão estética, pois faz apologia à violência, autorizando, por exemplo, o vandalismo do deputado Márcio Tadeu A. Lemos (PSL) na exposição do Dia da Consciência Negra, na Câmara dos Deputados; ou o do deputado Daniel Silveira (PSL), durante a campanha, quando quebrou a placa em homenagem a Marielle Franco. Autoriza também a morbidez do governador Wilson José Witzel (PSC), que faz questão de acompanhar pessoalmente ações policiais que podem resultar em morte — não para conter os excessos dos agentes, mas para incentivá-los.

A conta grande do governo Bolsonaro ainda não chegou, mas vai chegar. Já temos notícias de políticos, artistas e pesquisadores exilados. Temos notícias de morte de políticos (Marielle Franco), e de políticos ameaçados (Marcelo Freixo). Temos também notícias de morte de inocentes (Ágatha Félix). Ainda assistimos a uma tentativa de aprovação de um “excludente de ilicitude”, que tem por fim o uso de força letal contra manifestantes que se juntarem contra o governo. Apesar disso, a conta grande ainda não chegou, ainda está por chegar. Ela virá na forma duma ampliação das diferenças sociais, suas consequências e uma grande dificuldade de reversão do quadro.

Recentemente, li a crônica “É preciso também não perdoar”, de Clarice Lispector. É uma crônica curtinha na qual ela discute a tolerância com o agressor e termina dizendo que

“Há uma hora em que se deve esquecer a própria compreensão humana e tomar um partido, mesmo errado, pela vítima, e um partido, mesmo errado, contra o inimigo. E tornar-se primário a ponto de dividir as pessoas em boas e más. A hora da sobrevivência é aquela em que a crueldade de quem é a vítima é permitida, a crueldade e a revolta. E não compreender os outros é que é certo” (Todas as crônicas, p. 148).

Já se percebe que estamos em guerra. O radicalismo político de agora é intransponível. O inimigo já apresentou as armas, está em marcha acelerada e muito disposto a matar. Sem metáfora e sem simbolismo: morte simples e concreta. É preciso iniciar uma reação imediatamente.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A militância política de Katerina Gógou


Semelhanças entre o terrorismo anarquista grego e a ameaça de criminalização dos movimentos sociais brasileiros


Comunicação apresentada em 05 de junho de 2019, no “VII Congresso Nacional do PPG-Letras e XX Seminário de Estudos Literários: Políticas da literatura”, que neste ano comemorou os 40 anos do Programa de Pós-Graduação em Letras da UNESP, Câmpus São José do Rio Preto.


Nicolas Pelicioni de Oliveira: Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UNESP, Câmpus de São José do Rio Preto, na linha de pesquisa “Perspectivas Teóricas no Estudo da Literatura”, com o projeto “A construção do mito em Katerina Gógou: a biografia como elemento de interferência na recepção da obra literária”


Comunicação


Com o projeto “A construção do mito em Katerina Gógou: a biografia como elemento de interferência na recepção da obra literária” pretendo mostrar como o autor empírico pode interferir no entendimento que se tem de sua obra ao ficcionalizar informações de sua história pessoal.

A peculiaridade de Katerina Gógou, no que diz respeito a essa ficcionalização, é sua proximidade e até mesmo militância junto a grupos de extrema esquerda. São grupos anarquistas, mais de um, e, o mais famoso talvez tenha sido o “Organização Revolucionária 17 de Novembro” (Επαναστατική Οργάνωση 17 Νοέμβρη). Como de tempos em tempos o grupo muda de nome, atualmente é conhecido como “Luta revolucionária” (Επαναστατικός Αγώνας). Essa militância é mencionada insistentemente na obra poética da autora.

Recentemente, em janeiro de 2017, aconteceu a prisão de uma das lideranças do grupo “Luta revolucionária”, Panagiota Roupa, conhecida como Póla. A prisão dessa líder teve repercussão internacional, sendo noticiada, por exemplo, pelo jornal norte-americano The New York Times com a manchete “A mais procurada terrorista grega é presa nos subúrbios de Atenas” (Greece’s Most-Wanted Terrorist Is Arrested in Athens Suburb, 05.jan.2017). De fato, o termo “terrorista” é também encontrado na poesia de Katerina Gógou; contudo, o termo “terrorista” parece merecer nova interpretação. A exemplo da proposta de lei sugerida no Brasil pelo então candidato à presidência, Jair Bolsonaro (“Proposta de Bolsonaro, votação da ampliação da lei antiterrorismo é adiada no Senado”, Estadão, 31.out.2018), que poderia criminalizar movimentos sociais, abre uma série de possibilidades interpretativas a respeito do que terá sido o “terrorismo” em relação a Katerina Gógou.

Observo que esse grupo anarquista, “Luta revolucionária”, está de fato envolvido em conflitos com a polícia e realmente pratica atos de vandalismo. É muito provável que tenha sido ação desse grupo a invasão e pichação da embaixada brasileira em Atenas, no dia 20 de fevereiro de 2019, em protesto contra a postura machista, homofóbica e racista do presidente Jair Bolsonaro, como afirma o jornal Cruzeiro do Sul, do dia 25 de maio de 2019. Esse tipo de ação assemelha-se às praticadas por Katerina Gógou. Quanto à acusação de terrorismo, a poeta manifesta-se no livro O mês das uvas geladas (1988) nos seguintes termos:

Terrorismo: Domínio por meio daviolência. Terror.E terrorista quer dizer o quê?Não quero a resposta dos que o inventaram.Peço a resposta dos sem fôlego.

A persona poética não se importa com os inventores da palavra “terrorismo”, que são aqueles que a acusam, mas com aqueles que se mobilizaram por não terem opção ou por já estarem “sem fôlego”. Nesse caso, os terroristas são os que sofrem algum tipo de opressão social.

É muito significativa essa mudança do termo “manifestantes” para “terroristas”, pois as mudanças quanto ao entendimento jurídico que se passará a fazer de grupos constituídos por minorias sociais pode não apenas intensificar a opressão como também justificar o uso de violência. Vale mencionar que o terrorismo atual passou a ser entendido como muito mais belicoso após o ataque ao World Trade Center, nos Estados Unidos. Ainda no governo progressista de Barack Obama, o terrorista Osama Bin Laden pôde ser sumariamente executado numa ação criticada dentro e fora dos Estados Unidos. Apesar da brutalidade do assassinato, o jornalista Clarke escreveu no jornal The New York Times que,

[o]s Estados Unidos precisavam eliminar Osama Bin Laden para satisfazer um clamor por justiça e, em menor medida, encerrar o mito de sua invencibilidade. Mas jogar o corpo de Bin Laden no mar não encerra a ameaça terrorista, tampouco acaba com a motivação dos apoiadores do Al Qaeda (02.maio.2011).[1]

O ataque terrorista do dia 11 de setembro de 2001 fez despertar o que há de pior na belicosidade dos Estados Unidos e, mais do que isso, parece ter autorizado toda uma prática de tortura e execuções que, aparentemente, vinham sendo abandonadas. Dado o caráter hegemônico da economia norte-americana, as práticas que lá são produzidas acabam por influenciar práticas ao redor do mundo. Muito provavelmente, em seus dias, Katerina Gógou, como terrorista, não correria os mesmos riscos daqueles que são acusados de terrorismo depois do ano de 2001.

A política armamentista do governo Bolsonaro, que, durante a campanha, demonstrava ser favorável à execução sumária, como atestam um grande número de entrevistas com o então candidato à presidência; agora, mesmo antes de ter implantado os seus projetos — dentre eles é exemplo a lei anticrime proposta pelo ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro —, a intenção já faz aumentar não só os casos de agressividade como também os números da violência policial, como atesta o levantamento do jornalista Alfredo Henrique para a Folha de S. Paulo. Segundo o jornalista, as mortes provocadas por policiais em serviço foram 48% maior no mês de março de 2019, que somam 64 suspeitos mortos, em relação ao mesmo mês do ano anterior, 43 mortos.

No dia 24 de fevereiro de 2019, Guilherme Boulos, professor, coordenador do Movimento Trabalhadores Sem Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo, que foi candidato à Presidência da República pelo PSOL em 2018, denunciou por meio de redes sociais a agressão e a ameaça de morte que sofreu o líder do MTST Goiás, que, ao perguntar ao policial se havia um mandato teve como resposta a exibição de um fuzil e a ameaça: “Aqui está o meu mandato. Fala alguma coisa de novo”. Como explica Boulos:

Não é a primeira ameaça que sofremos, mas não tenho dúvidas de que a postura e os atos do presidente Jair Bolsonaro, todos no sentido de criminalizar os movimentos sociais, são lidos como uma carta branca para a truculência do Estado (24.fev.2019)

Em procedimento que faz lembrar Manuel Bandeira em “Poema tirado de uma notícia de jornal”, Katerina Gógou registra, sob a interrogação “Mas não há Estado?”, que é um de seus poucos poemas que recebem título, a invasão de um domicílio. No poema seguinte, sem título, ambos do livro Repatriação, publicado postumamente (2004), registra a ação policial que resultou na morte do adolescente Michael Kaltézas (1970-1985), entre outros três manifestantes adultos.


MAS NÃO HÁ ESTADO?[2] A Tribuna de Domingo[3] 11.9.1978  REVISTA DO DOMICÍLIO PARA INVESTIGAÇÃO E DETENÇÃO, INSPEÇÃO E CONFISCO O título anuncia um final previsível. EM ATENAS, HOJE, 11º DIA DO MÊS DE JULHO DO ANO DE 1978, TERÇA-FEIRA, ÀS 4h que eu deite um cobertor sobre mim e em toda parte, nas janelas. Um que pernoita é presa de seus vizinhos traíras. Um poeta que escreve é uma criança muito muito pequena, tem febre durante a noite. Age e vive automaticamente, é ignorante da lógica do perigo. Imagina o seu próprio combatente como acusador das injustiças cometidas por todo lado. Por isso sente frio. VIEMOS PARA O CUMPRIMENTO DA REVISTA DO DOMICÍLIO E CAPTURA DO PROCURADO, COM ESCOLTA DE FORÇA POLICIAL, TENDO INFORMAÇÕES SEGURAS DE QUE O PROCURADO ESCONDE-SE EM SUA RESIDÊNCIA. ENTRAMOS NO PRÉDIO COM USO DAS CHAVES. OS HOMENS DAS FORÇAS ARMADAS TOMARAM O CONDOMÍNIO PELOS DOIS LADOS DA ESCADARIA…

Os elementos narrados em primeira pessoa na obra poética de Katerina Gógou estão próximos de sua história pessoal, contudo, ela é muito consciente de não estar escrevendo uma biografia e, muito sem cerimônia, a persona poética que fala leva o leitor a enganos. No poema que se segue ao “Mas não há estado?” são apresentados nominalmente as vítimas de um ataque policial; a saber: Kassímis, Tsirónis, Tsoutsouvís, Kaltézas, Prékas. Informações como essas, insistentemente colocadas em literatura, prestam-se, por um lado, a induzir o leitor a uma leitura biografista; por outro, de fato a registrar um momento histórico.

Para encerrar esta comunicação, lembro que, no Brasil, estão entre os acontecimentos brutais recentes a comemoração que o governador do estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), fez do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Esse ato de afronta coloca as forças institucionais em estado de guerra, aparentemente, contra seus próprios cidadãos. Por vezes, é a arte que faz a denúncia das atrocidades de forma mais contundente. Por exemplo, em situação análoga à de Katerina Gógou, o grupo de RAP Racionais MC’s denunciou o massacre do Carandiru, em 1992, apontando nominalmente o responsável:

Ratatatá, Fleury e sua gangueVão nadar numa piscina de sangueMas quem vai acreditar no meu depoimento?Dia 3 de outubro, diário de um detento(JOCENIR; BROWN, 2018, p. 89)

A arte assim é apresentada não apenas como contestação de uma ordem social absurda, mas, principalmente, como denúncia da brutalidade das autoridades. A realidade brasileira presente permite algum entendimento, por analogia, a respeito do que terá sido o contexto ditatorial e militar no qual Katerina Gógou produziu sua obra. Essa contextualização será importante para o desenvolvimento do meu trabalho de pesquisa A construção do mito em Katerina Gógou.

Referência

BOULOS, Guilherme. Governo Caiado entra sem mandado e faz ameaças de morte em acampamento do MTST em Goiânia. Instagram. 24 de fevereiro de 2019. Disponível em https://www.instagram.com/p/BuQ6AHjAQfb/. Acessado em 24.fev.2019.

CLARKE, Richard A. Bin Laden’s Dead. Al Qaeda’s Not. The New York Times. 02 de maio de 2011. Disponível em: https://www.nytimes.com/2011/05/03/opinion/03clarke.html?searchResultPosition=2. Acessado em 26.maio.2019.

GÓGOU, Katerina. Nóstos [Repatriação]. In: ______. Tóra na doúme eseís ti tha kánete: poiémata 1978-2002 [Agora veremos o que vocês vão fazer: poemas 1978-2002]. Atenas: Edições Kastaniotis, 2013.

GÓGOU, Katerina. O mínas ton pagoménon estafilión. [O mês das uvas geladas]. In: ______. Tóra na doúme eseís ti tha kánete: poiémata 1978-2002 [Agora veremos o que vocês vão fazer: poemas 1978-2002]. Atenas: Edições Kastaniotis, 2013.

GÓGOU, Katerina. Tóra na doúme eseís ti tha kánete: poiémata 1978-2002 [Agora veremos o que vocês vão fazer: poemas 1978-2002]. Atenas: Edições Kastaniotis, 2013.

HENRIQUE, Alfredo. Número de mortos em confrontos com policiais sobe 48%. Folha de S. Paulo. 03 de abril de 2019. Disponível em https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2019/04/numero-de-mortos-em-confrontos-com-policiais-sobe-48.shtml. Acessado em 25.maio.2019.

JOCENIR; BROWN, Mano. Diário de um detento. In: RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

MAGRA, Iliana. Greece’s Most-Wanted Terrorist Is Arrested in Athens Suburb. The New York Times. 05 de janeiro de 2017. Disponível em http://www.nytimes.com/2017/01/05/world/europe/panagiota-roupa-arrested-athens.html?emc=edit_th_20170106&nl=todaysheadlines&nlid=72348413&_r=0. Acessado em 05.jan.2017.

TRUFFI, Renan. Proposta de Bolsonaro, votação da ampliação da lei antiterrorismo é adiada no Senado. O Estado de S. Paulo. 31 de outubro de 2018. Disponível em: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,proposta-de-bolsonaro-votacao-da-ampliacao-da-lei-antiterrorismo-e-adiada-no-senado,70002576840. Acessado em 10.jan.2019.





[1] The United States needed to eliminate Osama bin Laden to fulfill our sense of justice and, to a lesser extent, to end the myth of his invincibility. But dropping Bin Laden’s corpse in the sea does not end the terrorist threat, nor does it remove the ideological motivation of Al Qaeda’s supporters.
[2] Tradução minha e de Anthee Bezioula.
[3] Το βήμα της Κυριακής, título de um jornal ainda hoje em circulação.

domingo, 28 de abril de 2019

Uma Questão Filosófica


Diante do caráter utilitário das novas políticas ou diretrizes educacionais, acabei por iniciar minha mais recente aula no Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus fazendo a seguinte pergunta aos alunos “Pra que a gente serve nesse mundo?”. É uma pergunta séria, de fundo filosófico e seria totalmente adequada ao viés utilitário da diretriz educacional bolsolóide, não fosse meu posicionamento contrário a essa diretriz. 

Como trabalho com adolescentes, já era de se esperar que alguém respondesse, entre risinhos de colegas, “pra nada”. Foi exatamente o que aconteceu; mas não devia ser uma resposta para causar riso, pois a resposta “séria” que eu queria era essa mesmo! Expliquei para os alunos que, na verdade, só os objetos servem — a mesa serve, a cadeira serve... Pessoas não servem! Nós não servimos para nada! Nós existimos e nossa existência tem de estar acima desse “servilismo”! 

A maioria de nós, em algum momento da vida, teve ou tem de se submeter a uma rotina estressante na qual o despertador nos tira do melhor do sono para exercermos uma atividade muito útil e repetitiva até às cinco ou seis horas da tarde. A recompensa por esse serviço em que servimos para alguma coisa será um salário. Se o salário for bom, ele nos possibilitará a experiência de alguns prazeres que também não servem para nada, como, por exemplo, uma viagem, um jantar com amigos, um show de rock, uma noite no teatro... — coisas inúteis, mas que, justamente por serem inúteis, tornam nossa existência suportável. 

As Ciências Humanas, especialmente a Filosofia e a Sociologia, pensam, analisam, criticam, entre outras coisas, essa “utilidade” dos seres humanos. Uma das constatações a que se chega é também uma pergunta: “A quem somos úteis?”; “Quem lucra com o sacrifício do meu tempo de vida dedicado ao trabalho?”, em resumo, “Com quem fica o dinheiro do meu trabalho?” Vale a pena lembrar que, nesse exato momento, está sendo discuta a reformar da Previdência — políticos estão decidindo o quanto o trabalho deve valer para o trabalhador ou, mais precisamente, o quanto é possível lucrar com o trabalho do trabalhador. Curiosamente, o trabalhador não é convidado a participar da discussão! 

Claro que essa não é a primeira vez que o Governo Federal retira recursos financeiros da Educação. A diferença é que, até agora, quando acontecia, ficava com a universidade a escolha de a quais cursos distribuir os cortes (tradicionalmente, os cortes acontecem na área de Humanas mesmo!). Dessa vez, o corte foi direcionado: Filosofia e Sociologia. Coincidentemente, esse corte acontece na mesma semana em que uma propaganda televisiva desagradou o presidente por mostrar diversidade. 

Militares golpistas diziam preferir o cheiro de cavalos ao cheiro do povo. É com esse espírito elitista que o governo trabalha para aumentar ao máximo, em curtíssimo prazo, o lucro do empresariado às custas do trabalhador. Do mesmo modo, nota-se um esforço para desarticular os instrumentos sociais que permitem uma crítica aos abusos das classes dominantes. Quando o trabalho estiver feito, a parcela pobre da sociedade estará numa situação deplorável e a mobilidade social será muito mais complicada. 


domingo, 31 de março de 2019

Sobre comemorar 1964











Nasci em 1973, numa cidade interiorana e assim, por estar longe dos grandes centros, imagina-se que também pudesse estar longe da violência da ditadura. Contudo, apesar da distância, talvez porque meu pai fosse sindicalista, petista ligado à CUT — do tipo que ajudou muitos trabalhadores a se aposentarem —, minhas lembranças de infância incluem vivências ou experiências daquela situação política tão restritiva.

No fim dos anos 70, Lula começava a despontar como uma liderança, Chico Buarque já era um artista consagrado, nós sabíamos o que era o militarismo e, principalmente, sabíamos que a violência ficava impune. Meu pai tinha medo de que a violência daqueles dias nos alcançasse porque, devido à sua atividade sindical, de vez em quando ele recebia ameaças de morte.

Há um episódio desses dias de infância que juntou a peste que eu era com o momento de política esquisita que vivíamos.

Um dia, o museu de Mirassol recebeu uma exposição de telefones. Não me lembro se eu e meus colegas chegamos a essa exposição espontaneamente ou se foi alguma professora que nos levou até lá. Em todo caso, para sabermos como era usar um telefone antigo — isso foi muito antes do celular —, um deles estava ligado à rede. Fizemos uma fila e cada um faria uma ligação para onde quisesse. Não tive dúvida: passaria um trote em alguém! Telefonei para minha própria casa e, sem me identificar, disse que ia matar todo mundo!

Eu devia ter onze ou doze anos e meu pai devia ter alguns anos a menos do que tenho hoje. Com onze anos a gente entende alguma coisa, mas sem a profundidade que as situações exigem. Imediatamente depois de passar o trote, entendi o tamanho da besteira que tinha feito. Peguei minha bicicleta e pedalei para casa — justamente a bicicleta e a facilidade de ir para casa faz com que a visita ao museu pareça não ter sido um acontecimento ligado à escola!

A brincadeira aconteceu durante o dia e quem atendeu o telefonema foi meu pai. Ao chegar em casa, ele estava assustado e o telefone fora do gancho. Ainda assim, a brincadeira ficou de graça! Talvez pelo alívio de saber que foi só um trote, não teve chinelada, nem castigo, nem nada!

Havia medo, uma suspeita no ar e não era só em casa. Todo mundo sabia ou ao menos desconfiava, pois sempre há incautos, que as leis, a polícia e, consequentemente, a justiça não eram confiáveis. Mais tarde, a Constituição de 1988 veio para amenizar o problema.

Fico imaginando o que eu teria para conversar com meu pai hoje. Quando ele morreu, minha participação em atividades políticas ainda era pequena. No final das contas, ainda que não tenha sido minha intenção, o trabalho intelectual que faço agora vai muito de encontro justamente ao que ele gostaria que eu fizesse. Se ele estivesse aqui, é possível que neste domingo estivéssemos nos perguntando se um dia o Brasil vai romper com esse projeto de país do futuro e passar a ter um presente.

Não há nada o que comemorar.


domingo, 17 de março de 2019

Porque falar de Marielle Franco















Marielle Franco morreu no dia 14 de março de 2018 e, como tenho visto Internet afora, muita gente acha que o assunto está enchendo o saco. 

O problema é que estamos vivendo numa sociedade extremamente violenta. No pé em que as coisas estão, qualquer cara fechada ou palavra mais áspera parece que vai resultar em pancadaria. Os atritos acontecem no trânsito, nas filas de banco ou de supermercado, nos ônibus e, também, entre amigos. 

Por um acaso, sou alto e forte. Sempre fui. Quando criança eu não sofria bullying porque eu era o que batia. Acredito que não o praticava, mas meu pai dizia que “quem bate esquece, quem apanha é que lembra”; então, eu talvez me tenha esquecido! De todo modo, quando cheguei à adolescência brigar virou motivo de vergonha e, por isso, nunca mais briguei. 

Além de ser alto e forte, sou homem! De vez em quando, numa discussão com uma namorada, por exemplo, mudo meu tom de voz. Quando isso acontece, qualquer que seja o motivo da discussão, ela cede para evitar ser agredida. Entre o primeiro beijo de namorada, lá aos meus quinze anos, até o entendimento de que, num relacionamento homem-mulher, as mulheres têm em perspectiva uma agressão, passaram-se mais de vinte anos. Venho aprendendo a conter meu tom de voz, mas é difícil, porque, além de tudo, sou exaltado! 

Não são somente as mulheres que têm medo. Todos nós sabemos que uma explosão de fúria pode nos atingir a qualquer momento. Aguardamos que aconteça na esquina ou dentro de casa... não foi hoje, mas podia ser. Afinal, tudo à nossa volta é violento: nossas músicas falam de violência, nossos filmes e os que importamos retratam a violência, nosso vocabulário é violento. 

Uma vez, ensaiávamos uma mudança. O famigerado politicamente correto tinha por objetivo um abrandamento de muitas das formas de agressividade. As políticas inclusivas tinham por fim o acolhimento de quem traz consigo alguma fragilidade a mais. Esse início de mudança estava relacionado à civilidade e pretendia criar uma sociedade mais acolhedora na qual seus cidadãos seriam capazes de mais delicadeza uns com os outros. 

Astutamente, por parte dos que têm condição de agredir, esses princípios de sociabilidade foram difamados. Passaram a ser entendidos como uma inversão de valores e o não enfrentamento voltou a ser visto como covardia. Esses difamadores não conseguem defender ideias, para eles a força bruta sempre será vantagem. A Marielle Franco foi uma das vítimas deles. 

No dia em que defendi meu trabalho de mestrado rememorava-se um ano do assassinato de Marielle Franco. Ela era seis anos mais nova que eu e também defendeu um mestrado. Talvez por causa da coincidência, fui procurar a dissertação dela. Está na Internet; foi defendida pela Universidade Federal Fluminense. Trata-se de um bonito trabalho sobre segurança pública “UPP — A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro”. 

Vê-se que, como cidadã, Marielle estudou o problema que pretendia enfrentar e elegeu-se vereadora para acabar justamente com o tipo de crime que a vitimou. Também se vê que ela trabalhou com muito mais seriedade e competência que seus adversários. Não por acaso, essa morte faz com que me lembre da Apologia de Sócrates, quando, dirigindo-se aos atenienses, ele diz não achar possível um homem melhor ser ferido por um outro pior. Ele sabia que permaneceria na história e que seu agressor seria esquecido. 

A violência contra a qual Marielle Franco lutava ainda está longe de acabar. Por isso, enquanto moradores de favelas no Rio de Janeiro forem vítimas de violência, Marielle será presente; enquanto mulheres e, especialmente, mulheres negras forem agredidas, Marielle será presente; enquanto a estupidez tomar o lugar do diálogo, Marielle será presente. 

Ainda temos muito o que falar sobre Marielle.

Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

  Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sem...