domingo, 6 de janeiro de 2019

Arte no Instagram: Ítalo Lima



Além do Ítalo Lima, pretendo apresentar outros artistas (ver Rodrigo Gallo) cuja produção, de inegável qualidade, pode resultar numa discussão mais aprofundada no futuro. 



Para quê, perguntou ele, para que servem 
Os poetas em tempo de indigência? 


Conheci esses versos por meio do livro A terceira miséria, da poetisa portuguesa Hélia Correia. Depois eu soube que ela os foi buscar em um poeta alemão chamado Friedrich Hölderlin. Fiquei curioso, mas nunca fui confirmar essa fonte. Fato é que estamos em crise e nossa indigência é cultural — professores e artistas agora são responsabilizados pela incompetência administrativa de governantes.

Houve uma outra época de crise em que poetas iam para as ruas entregar seus poemas mimeografados. Como explica Hollanda (2007) 
[n]os bares da moda, nas portas de teatro, nos lançamentos, livrinhos circulam e se esgotam com rapidez. Alguns são mimeografados, outros, em offset, mostram um trabalho gráfico sabido e diferenciado do que se vê no design industrializado das editoras comerciais (HOLLANDA, 2007, p. 9). 

Esses poetas eram chamados marginais por estarem à margem do mercado editorial. Falavam do que queriam e brincavam de fazer poesia. Dentre eles estavam Chacal, Ana Cristina Cesar, Torquato Neto... (ver a coletânea de Hollanda, 26 poetas hoje) Isso aconteceu pelos anos 1970, quando o Brasil queria libertar-se de mordaças, torturas e censuras. Cesar (2013), por meio da personagem Gil, vai atribuir a Shakespeare os versos “trepar é humano, chupar divino” (CÉSAR, 2013, p. 48). O poeta Charles vai escrever poemas como “Diário de bagos” 

quando você se abaixa pra pegar um disco 
com seu vestido curtinho 
delicioso 
aparece a calcinha no rego moreno da bunda 
curto muito 
meu olhar derrete de prazer 
não há como enganar a evidência 
desculpe o volume do lado esquerdo da calça sem cueca 
com tesão não se trinca 
antes todos entendessem e se dedicassem de corpo e 
cama 

obs.: meu pau esquecidamente duro 
cai no amolecimento 
(CHARLES, 2007, p. 232) 


Décadas depois, em 2018, constata-se que a liberdade sexual não foi alcançada. O que parecia ser uma conquista permanente de tudo o que promove a ascensão de grupos minoritários, de um momento para outro foi estrangulado por uma manipulação política travestida de moralismo. 

O sentimento de marginalidade retorna e, como descreve Matoso (1982), nos anos da poesia marginal 
[t]odo mundo fazia de tudo ao mesmo tempo. Ao contrário da última corrente de vanguarda (o poema-processo) e de seus antecedentes concretos fundamentais, a poesia marginal não apresenta qualquer homogeneidade, prática ou teórica. Não há um trabalho coletivo ou grupal orientado e posicionado contra ou a favor de determinados conceitos. Se existem traços comuns à maioria dos autores da década, são eles: a desorganização, a desorientação e a desinformação. E mais: a despreocupação com o próprio conceito de poesia e o descompromisso com qualquer diretriz estética resultaram numa espécie de displicência, de certo modo saudável, como se verá mais adiante, e, como consequência, tal conceito ou tais diretrizes podem ser indiferentemente observados ou não, consciente ou inconscientemente, na obra poética desses autores (MATTOSO, 1982, p. 29). 

Com esse mesmo espírito, surgem poetas que, por meio da Internet, fazem-se ouvir tanto quanto a turma do mimeógrafo dos anos setenta. Alguns, como o professor Azevedo Júnior, preferem o Facebook. Quando o governo, pressionado por grupos religiosos, tentou interferir com o ensino escolar, Azevedo Junior deixou seu protesto com rimas em tom de música rap

A classe média deu o aval 
E voltamos para era medieval 
Quando o conhecimento 
Incomoda os poderosos 
E que me desculpem os religiosos 
Mas ciência...é fundamental! 
(AZEVEDO JUNIOR, 2018)


O poeta Ítalo Lima, por sua vez, vai um pouco além e não só divulga seus poemas pelas páginas do Instagram (@italolimapoesias) como agora também distribui um livro de pouco mais de quarenta páginas no formato PDF.

Com atividade artística intensa que inclui a postagem de poemas, a promoção de saraus e de feiras e participação em palestras, Lima já lançou um livro no formato impresso e digital (Tem sempre uma esperança se prostituindo dentro da gente, editora Viseu, 2018) e agora, com poucos meses de intervalo e apenas no formato digital, O desinteresse começa quando o gozo termina, 2018 (clique no título para o download do PDF). Essa obra apresenta poemas como “Garganta profunda”, sempre de temática LGBT:

Meus pais nunca me ensinaram a fazer garganta profunda, nunca entendi ao certo o real motivo de ter passado tanto tempo sem saber abrigar na minha laringe um membro rígido. Tenho certeza que Deus criou gargantas para isso. O pau do Alberto foi o primeiro que em mim fez lar, foi um aprendizado lento e fundo. No início, ânsias de vômitos são normais, mas passado os exatos três minutos, tudo vira afago. A regra é simples: só cabe paus acima de dezoito centímetros. Nada abaixo disso. E Alberto tinha o tamanho exato que me fazia sorrir até amanhecer. Porque o bom da vida é sentir as coisas profundas do mundo.
(LIMA, 2018, p. 10)


Esses poemas de temática sexual, provocativos, ao revelarem o íntimo de um casal, fazem um protesto, inicialmente, à sociedade machista e homofóbica e, finalmente, a uma inusitada autoridade repressora que, uma vez no poder, quer transformar a prática sexual em questão de Estado mediante a imposição de um modelo familiar que, em qualquer análise, mostra ser apenas uma ficção de mal gosto. O poema “Eu me masturbo pensando em você” junta devoção e sexo:

Eu me masturbo pensando em você, 
e cubro todos os santos do altar do meu quarto, apago as velas, faço unguento de água benta e purifico as minhas mãos, rezo um terço de penitência e ajoelho nu frente ao espelho dos meus sonhos. aliso meu membro frouxo levemente com a mão direita, fecho os olhos instantaneamente e penso em toda desordem do teu corpo: imagino teus dedos brancos invadindo todos os orifícios do meu desencanto, você ri sem medo e eu apanho com a mão feroz teus cabelos com aleatórios fios brancos, eu sei, toquei em solo sagrado, teu cabelo único é vício proibido, apalpei então tua nuca firme no mesmo instante em que você sussurrou umidamente no meu ouvido surdo “eu não te amo mais”. Despertei sem arquitetura e vi um corpo em agonia frente ao espelho, não veio gozo flácido, nem umidez repleta de culpa, havia apenas suores imaturos e santos incomuns de costas pro vazio do meu abandono, minha punição maior será a ausência do teu sobrenome. com quantos ais se reza uma esperança? 
(LIMA, 2018, p. 17) 



Lima trabalha com ilustradores. O desinteresse começa quando o gozo termina conta com capa ilustrada por André Marques (@ndrmrqs). No Instagram, trabalha com Tai Melo (@nudegrafia_mirror), Álvaro Castro (@alvarocastrodesign), Lorenzo Dustkid Guagni (@thedustkid), Willian Vailant (@meupincelmolhado), dentre outros. Todos de temática sexual no limite do que é permitido pelo Instagram. Tai Melo explica que uma conta sua foi desativada devido ao conteúdo — ela, bem como os demais, continua provocativa, portanto, sugiro que a visita a esses sites não demore a ser feita. 


Referências bibliográficas

AZEVEDO JÚNIOR, Antônio. A classe média deu o aval. [São José do Rio Preto], [sine nomine], 5 de agosto de 2018. 

CESAR, Ana Cristina. Poética. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 

CHARLES. Diário de bagos. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. 6a ed. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. 

CORREIA, Hélia. A terceira miséria. Lisboa: Relógio d’água, 2012. 

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. 6a ed. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. 

LIMA, Ítalo. O desinteresse começa quando o gozo termina. [Teresina], [sine nomine], 2018.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Série “Leiam direito a Bíblia” ou “Ateu ensina cristão” 2


Na “Parábola do homem louco”, aforismo 125 do livro A gaia ciência, por meio de um protagonista louco o filósofo Nietzsche faz a famosa afirmação de que “Deus está morto” (2001, p. 148). Apesar de sua aversão à vida religiosa, no aforismo 475, intitulado “O homem europeu e a destruição das nações”, ao fazer um balanço sobre o povo judeu (importante lembrar que Nietzsche era alemão e que esse aforismo está no livro Humano, demasiado humano, publicado originalmente em 1878; portanto, antes de Hitler e das guerras mundiais, mas sob um forte sentimento nacionalista alemão), o filósofo afirma que “devemos aos judeus o mais nobre dos homens” (2000, p. 258) — e coloca Cristo entre parênteses para que não deixar dúvidas aos leitores desavisados. Essa nobreza diz respeito tanto ao espírito quanto ao sangue. 

Jesus, o Cristo; Jesus, o filho de Davi; Jesus, o rei de Israel, são referências à nacionalidade, à origem, enfim... Ser filho de Davi significa linhagem nobre — Jesus era pobre e humilde, nasceu numa manjedoura, mas, como se diz, tinha sangue azul, pois era descendente do rei Davi. Por causa dessa descendência, poderia ser o rei de Israel e isso o destacava entre os demais líderes religiosos de sua época. Contudo, diante de Pilatos, no julgamento que o condenaria à cruz, Jesus afirma “[...] O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse entregue aos judeus; mas agora, o meu reino não é daqui” (João 8.36).

O reino de Jesus não é deste mundo, mesmo assim ele pertencia a uma das tribos de Israel e era cobrado como líder somente de Israel. O episódio que universaliza Jesus como o Deus de todos o que o procuram é relatado no evangelhos de Mateus (15.21-28) e de Marcos (7.24-30). Nesse episódio, uma mulher que o evangelho de Mateus apresenta como cananeia e o de Marcos como uma grega de origem sírio-fenícia, pedia que Jesus libertasse sua filha, que estava possuída por espíritos demoníacos. Jesus não podia atendê-la, porque ele era exclusivo do povo de Israel e, por causa disso, os apóstolos ficaram incomodados e pediram que Jesus a mandasse embora: “Despede-a, pois vem clamando atrás de nós” (Mateus 15.23). Jesus explica à mulher: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 15.24). Como a mulher insistisse, Jesus passou-lhe uma descompostura: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (Mateus 15.26). Apesar de ofendida, a mulher insistiu mais uma vez: “Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mateus 15.27). Comovido, Jesus concedeu o milagre a essa mulher estrangeira e, por causa de transgressões como essa, o povo judeu o entregou para que fosse crucificado e nunca o aceitou como Deus. 

Lembrando: os judeus não seguem o Novo Testamento, sim o Pentateuco ou Torá, que são os cinco primeiros livros da Bíblia, atribuídos a Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). 

Termino repetindo o que já disse no texto anterior: Jesus não tolerava sofrimento humano causado por leis imbecis.

Referência 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia Ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Série “Leiam direito a Bíblia” ou “Ateu ensina cristão” 1



Ao longo de toda minha vida, ouvi bobagens ditas por evangélicos. Como agora os evangélicos estão poder, entendo ser necessário alertar ao menos os bem-intencionados — aqueles que querem um país melhor e que só votaram no Bolsonaro porque acreditaram e ainda acreditam em mudança —, de que foram vários os períodos históricos em que a Bíblia foi usada para manipulação política.

Pretendo postar algumas análises sérias de passagens bíblicas do Novo Testamento. “Séria”, no caso, significa uma análise apoiada no texto da Bíblia, não nos interesses desse ou daquele grupo político. Contudo, essa não é uma análise neutra — citando Bagno (2012, p. 14) “não existe produto humano que não se configure, consciente ou inconscientemente, como uma tomada de posição política inspirada por uma ou mais ideologias; o mito da ciência ‘neutra’ não tem mais lugar na era em que vivemos”. 

Muitas das atrocidades combatidas por Jesus e relatadas pela Bíblia não são exclusivas do Mundo Antigo, pois continuam existindo hoje. A lei que autoriza o apedrejamento de mulheres flagradas em adultério, por exemplo, ainda existe em algumas partes do mundo (histórias como essa podem ser encontradas nos relatos de Malala, a jovem paquistanesa que recebeu o prêmio Nobel da Paz por defender a alfabetização de mulheres. Ela narra sua atividade política no livro “Eu sou Malala”). 

A Bíblia relata a interferência de Jesus na condenação de uma mulher em João 8.1-11. Nessa passagem, “escribas e fariseus” procuravam uma justificativa para condenar Jesus; portanto, se ele impedisse o apedrejamento, condenaria a si próprio como um transgressor da lei de Moisés (Deuteronômio 22.22 — “Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim eliminarás o mal de Israel”). A estratégia de Jesus foi fazer com que os acusadores, que também seriam os carrascos, agissem de acordo com a própria consciência (João 8.7 — “[...] Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra”). 

Esse episódio é comumente citado para exemplificar a compaixão de Jesus, mas é preciso entender também a transgressão: Jesus não admite leis sem sentido ou punições desproporcionais. Diante de situações como essa (os evangelhos relatam algumas, que discutirei em outras análises), Jesus transgride, muda a lei e deixa a seus seguidores um exemplo de que é preciso agir com sensibilidade, especialmente quando estamos em posição privilegiada de autoridade.

Por causa de transgressões como essa, Jesus foi preso, julgado e condenado à morte por cruz. Como observa Aquati (2008, p. 72, em nota) esse era “o mais cruel e ultrajante meio de aplicação da pena de morte entre os romanos e estava normalmente reservada aos escravos. As faltas que implicavam tal condenação eram em geral a pirataria, o assassinato, o banditismo e a incitação à revolta”.


Referência 

AQUATI, Cláudio. Tradução e posfácio. In: PETRÔNIO. Satíricon. ______. São Paulo: Cosac Naify, 2008. 

BAGNO, Marcos. Gramática pedagógica do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Triste

Escrito no ano 2000 por motivos muito diferentes dos que motivam a postagem dele hoje. É interessante e também agradável poder recorrer a um texto meu, e não de algum autor que eu li, para traduzir ou expressar um sentimento meu. 




tudo dentro é triste
nem mais é preciso a sombra da morte
       para sentir essas dores


que chegam assim
nas asas da manhã


bastaria culpar a solidão
— velha companheira
mas ela é inocente
bem sei


...hoje a tristeza existe por si só

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Arte no Instagram: Rodrigo Gallo

Esse texto foi originalmente escrito em francês, para meu blog BBMK (link L’art sur Instagram : Rodrigo Gallo). Além do Rodrigo Gallo, pretendo apresentar outros artistas cuja produção, de inegável qualidade, pode resultar numa discussão mais aprofundada no futuro. 



Pelas redes sociais pode-se fazer amigos, encontrar pessoas interessantes e também descobrir artes que não se conheceria por outro meio. Talvez mais que outras redes sociais, o Instagram nos permita entrar em contato com trabalhos artísticos aos quais dificilmente seríamos expostos. Dentre esses casos, está o trabalho do artista mineiro Rodrigo Gallo. 

Gallo trabalha com metal, sua página no Instagram é a Full Metal Concept (link fullmetalconcept), que pode ser traduzido como “um conceito completo sobre o metal”. Não por acaso, um de seus temas preferidos para escultura é a guitarra elétrica. Para descrever seu trabalho com uma linguagem mais precisa, eu recorro ao conceito de escultura pós-moderna; ou seja, um estilo que faz uso da incoerência, da descontinuidade, da paródia, da cultura popular, enfim... A mesma linguagem que produziu e popularizou, por exemplo, o “zumbi”! 






















Todas as fotos são publicadas com a autorização do artista.

Um dia, perguntei ao Rodrigo sobre os efeitos da oxidação sobre seu trabalho de arte. Ele respondeu-me que prefere mesmo a ferrugem ao metal limpo; na verdade, compartilho o mesmo gosto! Especialmente quanto às guitarras, parece-me que a oxidação favorece uma rusticidade que intensifica o aspecto de deterioração próprio da linguagem pós-moderna. Apesar disso, um dia, alguém encomendou um violino — nesse caso, não haveria mais a relação metálica com a música heavy metal e a deterioração; em vez disso, uma relação muito insólita com a música acadêmica.





















Contudo, nem todos os seus trabalhos estão ligados às ideias pós-modernas de rebaixamento e degradação, Gallo faz também réplicas de motocicletas Harley-Davidson. Ele já fez mais de uma centena delas, que recebem pintura e, portanto, não ficam tão expostas à oxidação. 

Um dia, no Instagram, Gallo anunciou que faria um trabalho talvez polêmico. Encomendaram-lhe uma AK-47 e ele preocupou-se em explicar que, num mundo tão cheio de violência, ele não tem intenção nenhuma de fazer qualquer tipo de apologia à guerra, mas somente um trabalho artístico. Para que não houvesse qualquer dúvida sobre a natureza de seu trabalho, as marcas da escultura foram intensificadas! Foi um grande desafio manter o padrão artístico de uma obra que tão facilmente poderia ter um aspecto ou infantil ou mais brutal que o desejado. 

















Mais tarde, Virginia Soares fez sobre ele um artigo para o jornal da ESAB (link ESAB), uma empresa de produtos de soldagem. A ESAB não é a única parceria de Gallo, ele também conta com a Dremel, uma empresa de ferramentas. A parceria com a Dremel proporcionou, recentemente, o sorteio de uma de suas réplicas de motocicletas!















Faz algum tempo, ele começou a construir uma réplica da Torre Eiffel. É um projeto grandioso, em escala de 1 por 100. Eu lhe perguntei sobre o estudo necessário para essa produção e ele me respondeu que, por causa desse trabalho, acabou conhecendo muitos aspectos da Torre Eiffel. 





















Foi somente pela internet que falei com o Rodrigo. Moramos cerca de seiscentos quilômetros um do outro e nunca nos encontramos! Mas, essa não é a maior distância geográfica entre mim e um amigo em redes sociais. A Patrícia, minha parceira em estudos de língua estrangeira no blog BBMK, assim como a Elena Zymara, uma outra artista que divulga seu trabalho pelo Instagram, moram, as duas, muito mais longe de mim que o Rodrigo! Mas, contarei essas histórias em outra ocasião...

domingo, 15 de julho de 2018

As personagens negras na literatura antiga

Começo esse texto explicando de qual “literatura antiga” estou falando: pretendo discutir o romance antigo produzido na Grécia e em Roma entre os séculos II e VI d.C. Segundo o pesquisador Jacyntho Lins Brandão, no texto “Qual romance?” (há um link no título que leva ao texto; para mais detalhes sobre essa publicação, veja as Referências abaixo), no período em que esses romances foram escritos, a Grécia estava sob o domínio de Roma, de modo que, a rigor, todos os romances são romanos. 

Bakhtin, no livro Questões de literatura e estética (veja as Referências) classifica como “romances de aventuras e provações” os que foram escritos em grego, são eles 1) Quéreas e Calírroe, de Cáriton de Afrodísias; 2) As Efesíacas ou Ântia e Habrócomes, de Xenofonte de Éfeso; 3) Leucipe e Clitofonte, de Aquiles Tácio; 4) Pastorais ou Dáfnis e Cloé, de Longo; 5) As Etiópicas ou Teágenes e Caricleia, de Heliodoro; e como “romances de aventuras e de costumes” os que foram escritos em latim, são eles 1) Satíricon, de Petrônio; e 2) O asno de ouro, de Apuleio. 

Essa lista de romances têm sido aumentada nos últimos anos devido à descoberta de novos textos; mas, para tratar da representação de personagens negras, basta os textos acima — na verdade, nem chegarei a discutir todos.

Quando se fala da cultura brasileira como greco-romana e judaico-cristã, entende-se que são características da cultura que recebemos dos colonizadores portugueses. A língua romana teve muita influência da língua e da cultura grega e, embora haja muitas outras línguas na formação do português, mesmo o de Portugal, a herança latina é muito forte. Da mesma forma, a religião católica é a predominante no Brasil. Mas a cultura greco-romana não é a única da Antiguidade — em literatura, dizemos que a cultura greco-romana é a do ciclo troiano, ou seja, a que conta as histórias relacionadas com a guerra de Troia. Ilíada e Odisseia, de Homero, Eneida, de Virgílio e toda uma produção teatral, poética e romanesca. O outro grande ciclo é o chamado ciclo arturiano, mais relacionado ao povo do norte da Europa (Grécia e Roma estão ao sul, banhados pelo mar Mediterrâneo), e conta a história do rei Artur, do mágico Merlin e tem uma mitologia muito diferente da do ciclo troiano.

O norte da Europa era povoado por vikings, anglos, germânicos e aí sim temos uma população de pele muito clara e cabelos loiros e ruivos. Nos países mediterrâneos, por outro lado, a constituição étnica não é essa e, diga-se de passagem, boa parte das histórias passam-se no norte da África. 

No romance Leucipe e Clitofonte, de Aquiles Tácio, o narrador Clitofonte, ao ser sequestrado no Egito, vai descrever os sequestradores como “não totalmente negros, como um indiano; mas, antes, como um detestável etíope” (ACHILLES TATIUS III.9.2 [1969, p. 155]). Esse romance, escrito no século II d.C., dá testemunho literário de um Egito negro.

Há uma disputa entre o herói do romance Dáfnis e Cloé, de Longo, e um seu rival, por um beijo da heroína. Vou transcrever o diálogo todo, o herói é Dáfnis, o rival é Dorcon, e Cloé é a heroína. Quem começa é Darcon: 

“Eu, ó rapariga, sou mais alto do que Dáfnis; sou um boiadeiro, e ele não passa de um cabreiro; valho mais do que ele, da mesma forma que os bois valem mais do que as cabras; sou branco como o leite e louro como a seara do trigo pronto para a ceifa, e fui alimentado por uma mãe, e não por um animal. Ele é miúdo, e sem barba, como uma mulher, e escuro como um lobo; pastoreia bodes, e cheira tão mal quanto eles, e é pobre demais para ter um cachorro. E se, como dizem, foi uma cabra que lhe deu leite, ele em nada difere de um cabrito.” 
Depois destas e outras palavras semelhantes de Dorcon, eis o que disse Dáfnis:
“Eu fui alimentado por uma cabra, como Zeus; guardo bodes que são maiores do que os bois dele; mas não tenho o odor deles, da mesma forma que Pã, o qual, porém, é um bode quase por inteiro. Contento-me com queijo, pão cozido no espeto e vinho claro, tudo o que possuem os camponeses ricos. Sou imberbe, mas como Dioniso; sou escuro, mas como o jacinto, e no entanto Dioniso vale mais do que os sátiros e o jacinto mais do que o lírio. Quanto a ele, é ruivo como a raposa, em seu queixo aponta uma barba de bode, e é branco como uma mulher da cidade; e se é a mim que irás beijar, tu beijarás minha boca, se é a ele, tu beijarás os pelos de seu queixo. Lembra-te, ó rapariga, que tu também tiveste um animal como ama de leite, e mesmo assim és bela” (LONGO I.16 [1990, p. 16-7]). 

Segundo a tradutora “o termo jacinto designa um grande número de plantas, entre elas a airela, que, provavelmente, é a aqui referida” (BOTTMANN, 1990, p. 101, em nota). Essa airela vai da cor vermelha até a preta. Vale dizer, Dáfnis venceu a disputa!

Esses dois textos descrevem de forma textual e inconteste, personagens negras. A Ilíada, de Homero, faz diferente, nela, devido à descrição de personagens brancas, loiras, de olhos azuis, como no trecho abaixo, deduzimos que, talvez, esses personagens sejam exceção no grupo.

Tudo isso lhe rodava no íntimo e, entretanto,
ia sacando da bainha o gládio enorme.
Então, do céu, Atena desce. Enviou-a Hera,
dos braços brancos, que ama os dois, por ambos vela.
Por trás segura-lhe os cabelos louros, só
visível para ele; ninguém mais a vê.
Espanta-se o Peleide; gira o corpo, e logo
dá com Palas Atena: olhos terríveis brilham!
Dirigindo-se à deusa diz palavras rápidas:
“Filha de Zeus tonante, portador do escudo,
por que vens? Assistir à audácia de Agamêmnon?
Pois declaro o que penso e hei de ver cumprido:
seu belicoso orgulho vai causar-lhe a morte”.
Brilho de olhos azuis, responde a deusa Atena:
“Descendo do alto céu, para acalmar-te a ira
(se acaso me obedeces), vim a mando de Hera,
deusa dos braços brancos, que por ambos vela.
Vamos, para essa briga! Deixa em paz a espada!
Insulta-o com palavras, sim, o quanto queiras.
Agora vou dizer-te o que se cumprirá:
um dia hão de pagar-te o triplo em dons esplêndidos
como preço da afronta. Acalma-te e obedece” (CAMPOS, 2003, p. 41-3 [HOMERO, Ilíada I.193-213]). 


Ao prestar atenção nas descrições de etnias feitas pela literatura antiga greco-romana, é possível constatar que há uma variedade muito maior que aquela representada pelo cinema. 





Referências 


ACHILLES TATIUS of Alexandria. The Adventures of Leucippe and Clitophon. Translated by S. Gaselee. London: Loeb Classical Library, 1969. 

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e estética. Tradução de ANDRADE, Homero Freitas de; AUGUSTO Jr., Góes; BERNARDINI, Aurora Fornoni; NAZÁRIO, Helena Spryndis; PEREIRA Jr., José. São Paulo: Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho, Hucitec, [1920-30] 1990. 

BOTTMANN, Denise. Notas. In: LONGO. Dáfnis e Cloé. Tradução Denise Bottmann. Campinas, SP: Pontes, 1990. 

BRANDÃO, Jacyntho Lins. Qual romance? (entre antigos e modernos) In: Eutomia: revista de literatura e linguística, Vol. 1, nº 12. Recife: UFPE, Jul./Dez. 2013, p. 80-99. 

CAMPOS, Haroldo. Ilíada de Homero: vol. I. São Paulo: Arx, 2003. 

LONGO. Dáfnis e Cloé. Tradução Denise Bottmann. Campinas, SP: Pontes, 1990. 


terça-feira, 10 de julho de 2018

Malala no Brasil

Apresentar Malala é fácil: é a garota que defendeu o direito à educação e, por isso, foi baleada pelo Talibã. Mas não é só isso, depois ela recebeu um Nobel — agora planeja vir ao Brasil.

O livro que conta a história dela é o Eu sou Malala. (YOUSAFZAI, Malala; LAMB, Christina. Eu sou Malala: a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.)















Malala encontra garotas indígenas em trajes tradicionais.


Abaixo está a notícia que recebi e também o link para quem quiser fazer uma doação. Ela está sempre pedindo doações — o Fundo Malala vive de doações —, e a mensagem é dirigida ao mundo, não somente ao Brasil. A tradução é minha.



Malala está trazendo sua luta pela educação de garotas à América do Sul. Nesse ano ela vai passar seu aniversário no Brasil — uma nação com uma das maiores economias e mais de 1,5 milhão de meninas fora da escola. Racismo, pobreza e violência impedem que as garotas atinjam todo seu potencial. 

Malala is bringing her fight for girls’ education to South America. This year she is spending her birthday in Brazil — a nation with one of the world’s largest economies and more than 1.5 million girls out of school. Racism, poverty and violence prevent girls across the country from reaching their full potential. 

“Ao crescer, constantemente lhe dizem que você não pode. Você não pode porque você é negra ou porque é pobre ou porque nasceu numa bairro violento”, diz Dondara, uma estudante negra do Rio de Janeiro. A pobreza força muitas meninas a deixarem a escola e a entrarem no mundo do tráfico ou da exploração sexual.

“Growing up, you’re constantly told you can’t. You can’t because you’re black or poor or born in a dangerous neighborhood,” says Dondara, an Afro-Brazilian student from Rio de Janeiro. Poverty forces many girls out of school and into drug-related crime or sex trafficking. 

Para Rebeca, 16, a constante ameaça de tiroteio na favela faz com que seja difícil para ela ir à escola em segurança. Muitas de suas amigas já desistiram — e Rebeca não tem certeza se ela pode continuar correndo o risco.

For 16-year-old Rebeca, the constant threat of shoot-outs in her favela makes it difficult for her to get to school safely. Many of her friends have already dropped out — and Rebeca isn’t sure she can continue taking the risk. 

Durante sua viagem, Malala encontrará meninas como Dondara e Rebeca para aprender sobre os obstáculos que elas encontram e os recursos de que precisam para melhorar o acesso à educação para meninas em suas comunidades.

During her trip, Malala is meeting girls like Dondara and Rebeca to learn about the obstacles they face and the resources they need to improve access to education for girls in their communities. 

Com sua ajuda, podemos devolver às meninas o que o racismo, a pobreza e a violência tentaram tirar. Doe ao Fundo Malala hoje para ajudar todas as meninas a alcançarem seu potencial pleno. 

With your support, we can give back to girls what racism, poverty and violence tried to take away. Donate to Malala Fund today to help every girl reach her full potential. 

Agradecemos por amizades como a sua, 
Grupo Fundo Malala 

We’re grateful for friends like you, 
Malala Fund Team




Buenos Aires: Facultad de Filosofía y Letras

  Fazia parte dos planos de passeios por Buenos Aires visitarmos uma universidade, mais especificamente, um curso de Letras. Isso porque sem...